Este texto dá continuidade à reportagem "Ponte para a transformação", sobre o Coletivo Mulheres Cientistas em Rede.
Se o Coletivo Mulheres Cientistas em Rede nasceu da inquietação, ele se consolidou no território. Em Aruanã (GO), município-piloto das ações do Programa Araguaia Vivo 2030, a ciência deixou o laboratório e foi para as escolas, para o comércio, comunidade indígena e para as margens do rio. “A partir dessas frentes, começamos a integrar projetos que fizessem sentido e, por incrível que pareça, todos eles se integram, porque estamos alinhados em um mesmo pensamento”, enfatiza a coordenadora do coletivo, profa. Andreia Juliana Rodrigues Caldeira.
No primeiro ano do coletivo, cerca de 2 mil pessoas foram impactadas diretamente por ações como feiras científicas, coleta de dados socioambientais, formação de professores e atividades com meninas dos clubes. O projeto atua com diagnóstico participativo e ciência cidadã.
Quando as pessoas entendem o que está sendo feito, elas colaboram. E quando participam do processo, deixam de ter receio e tornam-se parceiras. “Se não for coletivo, inclusive com a comunidade, a ciência fica meio nula. Vira uma ciência para publicar artigo, melhorar índice matemático e os números da universidade. Mas perde o sentido maior”, ressalta Andreia.
Entre as frentes encampadas pelo coletivo está o desenvolvimento de materiais didáticos e produções audiovisuais. Um dos primeiros resultados é um documentário sobre protagonismo feminino na pesca esportiva no Araguaia, realizado em parceria com o Programa Araguaia Vivo e o PPBio Araguaia, com direção da professora do curso de Cinema e Audiovisual da UEG Thais Oliveira. O documentário, que deve ser lançado em breve, registra o papel das mulheres na pesca esportiva, destacando a transformação histórica do perfil feminino nesse espaço, que antes excluía as mulheres e hoje começa a ressaltar sua participação ativa.
O filme parte da observação de que a inserção da mulher transforma dinâmicas sociais, econômicas e ambientais. Durante o registro do campeonato feminino de pesca esportiva, realizado em setembro do ano passado, a equipe acompanhou não apenas a competição, mas todo o ecossistema que se forma ao redor dela.
Foram entrevistadas mulheres pescadoras que participaram do circuito, trabalhadoras de pousadas, comerciantes, famílias envolvidas com a temporada e lideranças locais. A proposta foi compreender como a presença feminina impacta a dinâmica econômica local, a organização familiar e o comércio durante a temporada, além da relação com o meio ambiente. O documentário também destaca personagens simbólicas, como a primeira barqueira registrada em Aruanã e a cacica e a vice-cacica da comunidade indígena Iny Karajá.
São narrativas que enfatizam as mulheres ocupando espaços considerados historicamente masculinos, como a pesca esportiva e a liderança tradicional. O campeonato registrado era exclusivamente feminino, o que também levanta a reflexão: por que ainda é necessário um campeonato só para mulheres? A resposta está justamente na necessidade de visibilizar e fortalecer a presença feminina em espaços onde antes não havia participação ou ela era irrisória.
Promoção da equidade
Além do documentário, o projeto está desenvolvendo outras iniciativas voltadas à valorização da mulher em diferentes dimensões, como levantamentos sobre o impacto da inserção feminina em ambientes produtivos e científicos; desenvolvimento de e-books sobre com a biografia de mulheres-ícones na história da ciência e produção de materiais didáticos. A ideia é integrar ciência e transformação social, entendendo que promover equidade não é apenas uma pauta acadêmica, mas uma ação que pressupõe mudança estrutural.
Atuante no coletivo, onde desenvolve pesquisas ligadas à e bioeconomia circular e frutíferas do Cerrado, a profa. Joelma Abadia de Paula, docente do curso de Farmácia e do Programa de Pós-Graduação em Recursos Naturais do Cerrado (Renac|UEG), reforça que, apesar dos avanços na participação feminina na ciência, muitas pesquisadoras ainda lidam com as desigualdades de gênero. "No ambiente acadêmico, mulheres cientistas frequentemente precisam conciliar múltiplas responsabilidades, como a carreira, a vida familiar e as demandas institucionais, o que pode gerar sobrecarga e dificultar a progressão profissional. Além disso, estereótipos de gênero ainda persistem, levando muitas vezes à desvalorização do trabalho realizado por mulheres ou à necessidade constante de provar sua competência". Isso, segundo ela, se reflete na forma como a presença feminina é percebida:

"Ainda é comum que meninas tenham menos incentivo para seguir carreiras científicas, especialmente em áreas tradicionalmente dominadas por homens. Isso contribui para a manutenção de desigualdades e reduz a diversidade de perspectivas na produção do conhecimento. Por isso, fortalecer redes de apoio, ampliar políticas de equidade e incentivar a participação de meninas e mulheres na ciência são passos fundamentais para construir um ambiente acadêmico mais inclusivo, diverso e justo. Nesse contexto, iniciativas como o Coletivo de Mulheres Cientistas em Rede tornam-se fundamentais, pois buscam discutir a igualdade de gênero na ciência e contribuir para a construção de uma sociedade mais justa e inclusiva."
Brilho no olhar
O Coletivo Mulheres Cientistas em Rede organiza ainda mostras científicas e ações extensionistas. Um exemplo foi a Feira de Ciências realizada em Aruanã, em novembro do ano passado. O evento reuniu todas as escolas do município, da educação infantil ao ensino médio, no Centro de Convenções da cidade. Houve apresentações científicas, teatro, música e exposições de projetos. “O impacto mais significativo foi a mobilização das famílias. Pais assistiam às apresentações e incentivavam os filhos menores a participarem no futuro”, destaca a profa. Andreia Juliana.
E quando fala sobre as meninas do projeto, o tom de voz de Andreia muda e a fala ganha emoção. “Quando eu vejo uma criança empolgada, quando vejo o brilho no olhar de uma criança que olhou no microscópio pela primeira vez… aquele brilho ninguém tira mais dela. Isso está sendo oportunizado por esses projetos. Quando eu vejo meninas que vêm de famílias sem condições financeiras, que recebem a bolsa de Iniciação Científica Júnior, de R$ 300 e dizem ‘Tia, eu vou ajudar minha mãe a comprar comida’… essas coisas mexem muito com a gente. Às vezes a gente nem imagina a realidade que elas vivem. Quando você percebe que a ciência pode gerar transformação social concreta, eu me sinto realizada. Eu sinto que o nosso trabalho não está sendo em vão, que a nossa ciência está chegando a quem realmente precisa."
Um 8 de Março que fala sobre futuro
Em tempos em que ainda se discute se mulheres pertencem a determinados espaços, o coletivo responde com método, dados, inserção no território e protagonismo, criando referências próximas. “Eu acho que essa é a grande mensagem para mim. E eu percebo que esse pensamento tem se espalhado no coletivo. No projeto Mulheres, existe uma sinergia muito forte. Somos mulheres de lugares diferentes, áreas diferentes, histórias diferentes, mas todas com essa mesma visão. A ciência precisa ser ponte! Precisa ter devolutiva. Precisa transformar”, conclui Andreia.
Leia também: Ponte para a transformação



Meninas do Clube de Ciências participam de atividades científicas, como eventos e gravação de podcast durante a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia. Na última foto, a professora Andreia Juliana Caldeira, ao centro, ao lado das professoras Josana de Castro Peixoto, Joelma Abadia de Paula e Karine Obalhe Piorsk e a pós-doutoranda Anielly Monteiro, que integram o coletivo pela UEG
(Lucimeire Santos|Comunicação Setorial|UEG)