A noite caiu, o tempo deu uma esfriada na Cidade de Goiás e quando for sair é melhor levar o casaco. Mas nem por isso o movimento nas ruas diminuíram, muito pelo contrário, os estabelecimentos estão prontinhos para te servir aquela comida quentinha. E por aqui a coisa não é diferente, saindo direto do forno das ideias, trazemos três novas degustações críticas.
Finalizando o rolê degustativo dessa noite, em dobradinha os críticos Catarina Lima e Henrique Borges, alunos da Universidade Estadual de Goiás - UEG e do Instituto Federal de Goiás - IFG Cidade de Goiás respectivamente, imergiram na sessão 01 da Mostra de Cinema Goiano. Confira na íntegra as avaliações que tal experiência causaram:
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O nascer e crescer por elas - A busca pelas origens e a subversividade das narrativas femininas
Mostra do Cinema Goiano - Sessão 1
Por Catarina Lima e Henrique Borges Berbert
A primeira sessão da Mostra do Cinema Goiano do Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (FICA), de 2025, apresentou três filmes documentários que discutem a temática feminina. Os curtas e o longa-metragem abordam a força feminina diante de uma sociedade patriarcal e capitalista.
Não é segredo que a cultura enaltece a arte que revitaliza a alma dos povos. Na primeira seção da mostra de cinema goiano, foi possível sentir a dor e a celebre vontade de viver através do olhar de mulheres artistas.
A representatividade apresentada nos dois curtas-metragens da primeira sessão mostra, caminha entre a luta pelo lugar no mercado cinemático, a identidade e poder que o cenário feminino representa no campo da arte, a beleza da maternidade e a adrenalina, perigo e medo, que significa ser mãe e mulher no Brasil.
O curta-metragem Rocha, Substantivo Feminino, frutificado aos arredores de Cocalzinho de Goiás, foi produzido inteiramente por uma equipe de mulheres. Um documentário que busca explicar, através da perspectiva de escaladoras, o que é reconhecer seu lugar e construir um cenário que as abraça. Usando de entrevistas e imagens de arquivo de membras da equipe “Cocalcinhas”, a montagem nos carrega por uma viagem geral pelos “picos” e cavernas de Cocalzinho
Trata-se de uma luta pela quebra do machismo com uma visão quase metafórica, através do esporte da escalada. Esporte esse que também simboliza a subida do cenário feminino por meio de outro exercício chamado cinema. A metafórica luta pelo topo.
A criação da aventura em um berço que impõe confronto a beleza e o perigo de ser mulher, mãe, vó e até mesmo pai.
O cenário do esporte de escalada costuma ser dominado por homens. Na obra em questão é possível observar a procura de um ambiente para mulheres se sentirem seguras para fazerem o que puderem, e gerarem mais oportunidades para mulheres mais jovens e crianças livres. Crianças que assim como eu, foram protegidas pelo poderio feminino.
Com a direção de Larissa Corino e Patrícia Meschick que também escreveram o roteiro juntamente a Lidiana Reis, Rocha, Substantivo Feminino nos convida a olhar com vislumbre a potência feminina em qualquer lugar que lhes é por direito, seja no esporte ou no amplo campo do cinema.
Não muito além desta mesma perspectiva, porém com uma perspectiva mais intimista, O documentário Tingui, nos leva ao coração da comunidade quilombola do Moinho localizada em Alto Paraíso, na Chapada dos Veadeiros, pelo olhar de Dona Flor. Mulher preta, parteira e cuidadora. Retrata o contraste entre o fervor e a dor de cuidar das pessoas através da medicina, trabalho rural e o carinho da família.
Usando de entrevistas com a protagonista e sua família, visitamos seu ambiente de trabalho durante o processo e fabricação de seus remédios e sabonetes de Tingui. Enquanto trabalha, podemos ouvir em OFF, as explicações dos processos de fabricação de seus produtos e, em alguns momentos, comentários sobre seu estilo de vida bondoso.
A obra alfineta o sistema de saúde pública para quem não possui acessibilidade e dinheiro. É interessante o curta-metragem contrastar este tema de pobreza com a riqueza que é aprender com os mais velhos. A roça tem mato e a mata cura. No estado de Goiás, vivi e vivo a saúde através de pessoas que entendem as propriedades positivas dos nossos frutos, e isso é representado pela obra em tela.
Além disso, há a relação do tempo. O passado e o futuro, vistos pelos olhos da câmera, mas retratado por Dona Flor. Podemos ver o fruto de seus conhecimentos através de seus filhos/netos, que aprenderam a importância de apoiar e ajudar pessoas sem condições. Esse sacrifício volta em bondade, em beleza.
Raízes femininas
Dona Flor, como um grande contribuinte para a comunidade quilombola por meio das ervas medicinais e da fabricação do sabão de tingui, representava a sua força feminina e sua forma de expressão por meio da natureza, assim como Dona Francisca, que nos é apresentada no longa-metragem.
Em uma casa simples, em Goiânia, Dona Francisca conta sua história, por meio de seus sonhos e de suas plantas, que parecem ser as verdadeiras raízes de suas memórias enquanto mãe, esposa, parteira, curandeira e dona de casa.
No seu quintal, a protagonista planta, poda, colhe e cuida de suas plantas, que parecem ser seu bem maior e sua companhia, frente a uma realidade solitária. Enquanto busca por suas lembranças mais profundas, as plantas traçam, por meio de animações, o desenho da imaginação e do inconsciente de Dona Francisca, que se manifestam por meio de seus sonhos, que ela afirma ser uma forma de se comunicar com Deus.
É certo que a religião e a natureza se entrelaçam na vida de Dona Francisca e contam uma única história, que independentemente de qualquer dogma religioso, conferem fé na vida e nas pessoas, além de uma determinação ímpar, que trazem para a personagem uma conotação heróica. É como se ela travasse uma luta contra a medicina conservadora, os céticos preconceituosos e o capitalismo, enquanto nós, como espectadores, torcemos para que ela seja vitoriosa em seus objetivos.
Uma câmera detalhista e um ritmo sem pressa, revelam uma direção autêntica e despreocupada com o ritmo frenético das redes sociais que, na realidade, refletem bem a personalidade de Francisca, que é focada em trabalhar para cuidar das pessoas, fazendo isso sem pressa e com muito carinho. Afinal, será que as novas gerações seriam capazes de se permitir observar o mundo com um olhar mais detalhista e observador?
De acordo com Marília da Silva, uma das diretoras do filme, quando as filmagens começaram, Dona Francisca estava passando por um período de muito trabalho. “A gente chegava e tinha sempre o processo de ajudar ela a cuidar, uma filmava e a outra ajudava e a gente fazia um trabalho em conjunto, trazendo isso para o filme. Ela era uma pessoa bastante fechada e preocupada com as pessoas que queriam se apropriar do seu lucro para benefício próprio”, relata.
Segundo a diretora, as filmagens começaram em 2016 e, por isso, foram anos de tentativa para que Francisca aceitasse contar sua história de forma aprofundada e sem desconfiança do mundo comercial.
A nova civilização
Com sua fala afetiva e envolvente, Francisca passa o filme inteiro distante da agitação e dos barulhos da capital, o que torna, inclusive, o filme cansativo e desgastante em vários momentos, fazendo com que a narrativa perca a nossa atenção. Mesmo assim, Francisca consegue retomar o público, aos poucos, mostrando que sua horta é seu universo particular, um ponto seguro e aconchegante que guarda os capítulos de sua vida.
Ao final do filme, quando vemos Francisca se desconectar do cenário habitual e entrar em contato com a vida urbana, percebemos que ela realmente está intensamente conectada ao seu mundo individual e suas raízes, e é com ele que ela constrói sua própria civilização.
No fechamento da mostra, é possível notar que todos os filmes tratam de algo em comum: a ocupação da mulher dentro de sua própria civilização, habitando em seus espaços e valorizando suas origens, independentemente do que é certo ou errado para a sociedade.
Assim como consumimos nosso planeta, tragamos nossas almas quando não respeitamos o outro. As três obras se relacionam, através do olhar feminino, a importância de valorizar o espaço para todos, e cultivarmos quem cuida e quem cria.
Sinopses:
Rocha Substantivo Feminino ( Documentário: | 2024 | 26min. Direção: Larissa Corino, Patrícia Meschick)
No rústico cenário de Cocalzinho de Goiás e nas paisagens do cerrado do Parque dos Pireneus, um grupo de experientes mulheres escaladoras compartilha suas vivências com o esporte. O filme retrata histórias inspiradoras de coragem e resistência, mostrando mulheres que escalam além das montanhas. É um testemunho autêntico de como elas redefinem a conquista de picos, abrindo caminho para futuras gerações em busca de diversidade, inclusão e representatividade no esporte.
Tingui (Documentário: | 2025 | 25 min. Direção: Nalu Mendes, Natália Vitral)
"Tingui" é um documentário que nos leva ao coração da comunidade quilombola do Moinho, onde a mestra Dona Flor compartilhou ao longo de sua vida sua sabedoria ancestral sobre as plantas medicinais. Desde a infância, Dona Flor possui uma profunda conexão com a natureza. Conhecedora dos mistérios das ervas, foi uma renomada raizeira e parteira da região da Chapada dos Veadeiros. O curta-metragem não é somente uma aula sobre a feitura do tradicional sabão de Tingui, mas uma homenagem à vida de Dona Flor e sua contribuição inestimável para a sua comunidade.
Planta de Raiz Profunda (Documentário: | 2025 | 78 min. Direção: Elisa Di Garcia e Marília da Silva)
Francisca vai da horta para casa, da casa para o quintal, colhe, faz mudas, replanta. Faz remédio, envasa, destampando contos de sua vida. Ela já acudiu mulher parindo no meio do mato e na zona, foi merendeira, lavadeira, sustentou e curou os filhos operando milagres. Foi pra luta na cidade, mas vive no meio das plantas, ouve plantas, desabafa com elas. Sabe que é planta também.

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A Degustação Crítica integra a Residência de Crítica Cinematográfica é parte de uma iniciativa que visa ampliar os espaços de formação e circulação da crítica no Brasil Central, incentivando o olhar autoral e analítico de novos críticos em diálogo com uma das mais importantes vitrines do cinema ambiental no país. A produção textual dos residentes é feita sob coordenação e orientação do professor do Instituto Federal goiano da cidade de Goiás, Estevão de Pinho Garcia, com auxílio em monitoria do aluno de cinema da Universidade Estadual de Goiás, Antonio Ribeiro.
O Encontro das Escolas de Cinema e Audiovisual do Brasil Central conta com o financiamento da Secretaria de Estado da Cultura de Goiás (Secult - Go) e da Universidade Estadual de Goiás (UEG), além do apoio executivo da Universidade Federal de Goiás (UFG) e da Fundação RTVE. O evento tem sido transmitido pelo CriaLab - UEG, a UEG TV e a Radio UEG Educativa.
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