"Mulheres da pesca no Araguaia". Foto: Ana Clara Diniz
Produzir conhecimento também é saber contá-lo. Na Universidade Estadual de Goiás (UEG), o cinema e o audiovisual vêm assumindo esse papel ao transformar pesquisas em histórias que aproximam a ciência das pessoas e revelam os saberes, as memórias e as experiências de quem vive no Cerrado. Não por acaso, essa forma de comunicar está no centro do tema escolhido para o Congresso de Ensino, Pesquisa e Extensão (Cepe|UEG) de 2026 - "Conhecimento científico e conhecimento popular no contexto do Cerrado".
Nos últimos anos, esse trabalho fez com que as pesquisas desenvolvidas em Goiás fossem levadas a festivais nacionais e internacionais, ampliando o alcance de projetos socioambientais e destacando personagens fundamentais para compreender o bioma.
O percurso começou o documentário "Expedição Araguaia", dirigido pela professora Thais Oliveira, do curso de Cinema e Audiovisual da UEG, em parceria com a professora Mariana Telles (PUC Goiás e UFG), coordenadora do Programa Araguaia Vivo 2030. Lançado durante o Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (Fica) de 2025, o filme acompanha uma das maiores expedições científicas já realizada no rio Araguaia. A produção rapidamente ultrapassou os limites da universidade e foi selecionada para festivais de cinema, comunicação científica e audiovisual socioambiental no Brasil, México, França e outros países, além de conquistar o Troféu Seriema em 2025, concedido pelo Conselho Regional de Engenharia e Agronomia (CREA-GO).
Para Thais Oliveira, o reconhecimento confirma o potencial do audiovisual como ferramenta de divulgação científica. "A visibilidade do filme destaca a importância de transformar ciência em audiovisual, possibilitando que pesquisas realizadas no Centro-Oeste brasileiro alcancem um público mais amplo", destaca a professora. Segundo ela, “essa abordagem permite que o conhecimento científico seja comunicado de forma acessível e envolvente, ampliando a visibilidade do filme e beneficiando todos os envolvidos – pesquisadores, comunidades locais e o público em geral".
Mariana Telles ressalta que a linguagem audiovisual permitiu que os resultados das pesquisas retornassem para quem também faz parte delas. "O uso do audivisual posssibilitou que os resultados chegassem de fato em outras camadas da sociedade, assim como a própria comunidade que está sendo impactada com as pesquisas realizadas na região, intensificando a importância da comunidade ribeirinha na conservação e uso sustentável". Para a pesquisadora, a experiência também "possibilitou mostrar a importância ambiental e a beleza cênica desse patrimônio nacional e de sua comunidade para o mundo".
As mulheres que sempre estiveram no rio
Depois da expedição científica, as câmeras voltaram ao Araguaia para contar outra história. Lançado em 2026, "Mulheres da pesca no Araguaia" desloca o olhar para personagens que sempre fizeram parte da vida do rio, mas raramente ocuparam o centro das narrativas: pescadoras, comerciantes, trabalhadoras de pousadas, famílias e lideranças indígenas.
O documentário acompanha o cotidiano dessas mulheres e mostra como elas preservam conhecimentos transmitidos entre gerações, mantendo vivas práticas culturais profundamente ligadas ao território.
Ao comentar o processo de produção, a professora Thais Oliveira ressalta que a experiência de realizar o documentário envolveu convivência, escuta e troca. “Estar ao lado dessas mulheres durante os dias de gravação permitiu compreender como a pesca também é um espaço de transmissão de saberes, autonomia feminina e vínculo cultural com o território. O filme foi construído respeitando o tempo das personagens, suas falas e suas experiências reais com o rio". Para ela, assim como ocorreu no documentário “Expedição Araguaia”, o trabalho ampliou o olhar sobre o território. “O mais importante é que essas mulheres possam se reconhecer na tela e perceber que suas experiências têm valor, potência e relevância cultural", destaca.
A dimensão da memória também ocupa lugar importante nessas produções. Ao refletir sobre a relação entre os goianos e o rio Araguaia, Thais Oliveira observa que "Em Goiás, é muito difícil encontrar alguém que não tenha alguma memória ligada ao rio, seja uma viagem em família, temporadas de praia, histórias de pescaria e outras lembranças construídas às margens das águas". Ela acrescenta que "dentro dessa relação tão próxima, as mulheres sempre estiveram presentes, embora muitas vezes invisibilizadas. O documentário busca justamente dar visibilidade a essas trajetórias e mostrar que elas também são protagonistas da cultura do Araguaia", enfatiza.
Ciência que também conversa com as crianças
Nem toda divulgação científica precisa assumir o formato documental. Na UEG, a animação também se tornou uma aliada para aproximar crianças e famílias de temas socioambientais. Produções como "O mundo aquático de Micra" e "Florinha do Cerrado" transformam conceitos ecológicos complexos em narrativas acessíveis, sem abrir mão da precisão científica. Ao acompanhar uma microalga enfrentando problemas como mudanças climáticas, desmatamento e poluição dos rios, ou seguir a aventura de personagens inspirados na flora do Cerrado, esses filmes apresentam questões ambientais de maneira lúdica e despertam o interesse pela conservação desde a infância.
Cinema imersivo
E se o cinema aproxima o público da ciência, a experiência imersiva apresentada pela UEG durante o Fica 2026 deu um passo além. Além da Sessão Araguaia Vivo, que reuniu produções vinculadas ao programa em sala de cinema, a UEG apresentou a experiência imersiva “O Cerrado no caminho das águas”, exibida em cinema 360 graus (fulldome). A iniciativa, que se tornou uma das principais atrações do festival, foi desenvolvida em parceria com o Programa Araguaia Vivo, o Centro de Excelência em Segurança Hídrica do Cerrado( Cehidra Cerrado|UEG), o PPBio Araguaia, o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Ecologia, Evolução e Conservação da Biodiversidade (INCT EECBio) e o Coletivo Mulheres Cientistas em Rede, coordenado pela UEG. Em formato de um planetário inflável, a experiência convidou o público a percorrer, de forma sensorial, as paisagens, as águas, a biodiversidade e as histórias do Cerrado.
Sobre essa experiência, a professora Thais Oliveira ressaltou: "Como professora do curso de Cinema e Audiovisual da UEG, meu objetivo é usar as possibilidades que o audiovisual proporciona para contribuir para que o conhecimento científico ultrapasse os muros da universidade e alcance a sociedade de forma envolvente. A nossa experiência foi pensada em fulldome para criar uma experiência sensorial na tentativa de aproximar o público da ciência e dos temas ambientais".
Ao longo dessas produções, o cinema vai deixando de ser apenas um registro das pesquisas para tornar-se parte do próprio processo científico. Ao reunir pesquisadores, estudantes, comunidades ribeirinhas, representantes de povos indígenas, trabalhadores locais e diferentes instituições de ensino e pesquisa em torno de narrativas participativas, o audiovisual mostra que produzir conhecimento sobre o Cerrado também significa ouvir quem vive nele, preservar suas memórias e reconhecer que ciência e o conhecimento popular podem caminhar juntos na construção de novas formas de compreender, proteger e transformar esse patrimônio natural e cultural.
Confira as produções:

“Expedição Araguaia”
Lançado durante a 26ª edição do Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (Fica), o documentário foi filmado em fevereiro de 2025, durante a maior expedição científica já realizada no rio Araguaia. A bordo de um barco-hotel, pesquisadores percorreram mais de 150 lagos ao longo de 3,5 mil quilômetros, em uma jornada de 25 dias pela região do Médio Araguaia. No percurso, foram coletados dados essenciais sobre biodiversidade, identificados impactos socioambientais e promovido o diálogo entre a ciência, o poder público e as comunidades locais.
Além de dirigir o documentário, a profa. Thais Oliveira assina o roteiro ao lado das docentes da UEG Andreia Juliana Rodrigues Caldeira, Josana de Castro Peixoto e Juliana Simião. A produção reúne ainda entrevistas com outros professores da instituição, como Fabrício Barreto Teresa e João Carlos Nabout, responsáveis, respectivamente, pelas atividades de "Turismo e Pesca" e "Biodiversidade Aquática" do Programa Araguaia Vivo 2030.
A íntegra do documentário está disponível no canal do Araguaia Vivo no YouTube.
"Mulheres da pesca no Araguaia"
Dirigido pela professora Thais Oliveira em parceria com a professora Mariana Telles, o documentário traz histórias, vivências e a força das mulheres que fazem parte da cultura e da vida às margens do Araguaia. Um olhar sensível sobre território, tradição, protagonismo feminino e conexão com a natureza.
"O Cerrado no caminho das águas"
Lançado em formato 360º no Fica 2026, a produção acompanha o percurso das águas desde uma nascente do rio Araguaia até o mar, mostrando como rios, comunidades, ecossistemas e modos de vida estão conectados ao longo do trajeto. O filme destaca o papel do Cerrado como "berço" das grandes bacias hidrográficas brasileiras e ressalta a importância da conservação do bioma para a segurança hídrica nacional. O filme tem direção de Thais Oliveira, da profa. Andreia Juliana Rodrigues Caldeira (UEG), da publicitária Ana Clara Diniz e da professora Mariana Telles.
"Turismo de natureza no Araguaia"
Também dirigido pelas professoras Thais Oliveira e Mariana Telles, tem foco no turismo de observação de vida selvagem. A produção destaca uma alternativa ainda pouco explorada na região, especialmente durante o período de cheia do rio Araguaia, quando a pesca é interrompida para garantir a reprodução dos peixes. O filme mostra como a preservação ambiental pode impulsionar novas oportunidades de desenvolvimento econômico, cultural e turístico, promovendo uma relação mais harmoniosa entre natureza, ciência e sociedade.

"Florinha do Cerrado"
Dirigido por Charles Lima Ribeiro e pelas professoras Andreia Juliana Rodrigues Caldeira e Josana de Castro Peixoto (UEG), o filme é inspirado na coletânea infantojuvenil publicada pela Editora UEG. A animação acompanha a flor de ipê-amarelo Sara e as abelhas Déia e Jô em uma aventura pelo Cerrado, promovendo reflexões sobre flora, biodiversidade e conservação ambiental. A produção também ganhou versão imersiva em fulldome, apresentada no Fica 2026, e está disponível no YouTube.
"O mundo aquático de Micra"
O filme, que ficou em 2º lugar na categoria Ciências e Educação do Prêmio “Goiás Sustentável” de 2025, acompanha a trajetória de uma microalga no rio Araguaia enquanto enfrenta problemas como mudanças climáticas, turismo predatório, desmatamento e a presença de fertilizantes e agrotóxicos. Com roteiro e direção das professoras Thais Oliveira e Fernanda Carneiro (UEG), a obra traduz de forma lúdica conceitos ecológicos relacionados à perda de habitat, à redução da biodiversidade e à eutrofização dos ambientes aquáticos.
“A lenda da Serra das Areias”
Dirigida por Larissa Melo e Thais Oliveira, a animação mistura folclore e educação ambiental para contar a história de Vétera, uma menina que conhece personagens como Saci, Curupira e Cuca durante um passeio pela Serra das Areias, em Aparecida de Goiânia (GO). A narrativa convida crianças e famílias a refletirem sobre a importância de conservar o Cerrado e valorizar o patrimônio cultural brasileiro.
(Congresso de Ensino, Pesquisa e Extensão - Cepe|UEG)
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