
A proximidade entre áreas agrícolas e fragmentos de vegetação nativa pode estar associada a danos genéticos na fauna silvestre. É o que aponta um estudo da Universidade Estadual de Goiás (UEG), realizado no sul do estado, que identificou maior frequência de alterações no DNA da cuíca-graciosa (Gracilinanus agilis), considerando indivíduos capturados nas bordas de florestas próximas a lavouras, em comparação com aqueles que vivem no interior dos fragmentos. Típica do Cerrado e também conhecida como catita ou guaiquica, a espécie foi utilizada como modelo para avaliar os impactos das alterações ambientais e da intensificação da atividade agropecuária sobre a biodiversidade.
A pesquisa foi conduzida pelo biólogo Hermes Willyan Parreira Claro, doutor em Ciências Ambientais pela Universidade Federal de Goiás (UFG), sob coorientação do professor da UEG Wellington Hannibal. O estudo foi desenvolvido no âmbito do Laboratório de Ecologia e Biogeografia de Mamíferos e do Centro de Pesquisa em Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (CPBioS) da UEG, no Câmpus Sudoeste, com sede em Quirinópolis. A investigação contou com a orientação da professora-adjunta da UFG Daniela de Melo e Silva e com análises realizadas no Laboratório de Mutagênese (LabMut) do Instituto de Ciências Biológicas da UFG, em Goiânia.
O trabalho de campo foi desenvolvido no Refúgio de Vida Silvestre Serra da Fortaleza e em áreas do entorno, em Quirinópolis, onde fragmentos de vegetação nativa dividem espaço com plantações de soja, milho, cana-de-açúcar e pastagens. Entre 2020 e 2023, os pesquisadores capturaram 41 indivíduos de Gracilinanus agilis em 13 pontos de amostragem distribuídos entre a borda da floresta e o interior dos fragmentos.
Para avaliar possíveis danos citogenéticos, foi realizada a coleta de células esfoliadas da mucosa bucal dos animais com o auxílio de um swab (instrumento semelhante a um cotonete, utilizado para coletar amostras biológicas), um procedimento simples e não invasivo. O material foi analisado por meio do teste de micronúcleo, empregado para identificar alterações no núcleo das células.
Durante a divisão celular, fragmentos de cromossomos podem não ser incorporados corretamente ao núcleo principal, formando pequenas estruturas chamadas micronúcleos. A presença dessas estruturas, assim como de outras alterações nucleares, indica dano ao DNA.
Efeito de borda

Resumo gráfico do estudo
Um dos conceitos centrais do estudo é o “efeito de borda”, que ocorre quando há descontinuidade da vegetação estudada, criando zonas de transição entre o ambiente natural e áreas abertas, como lavouras e monoculturas. Nessas faixas, há mais incidência de luz solar, maior variação de temperatura e menor umidade. Essas mudanças microclimáticas intensificam o estresse fisiológico dos animais e podem ampliar o contato com contaminantes.
A pesquisa também aborda como a exposição aos xenobióticos, substâncias químicas estranhas ao organismo, como agrotóxicos e metais pesados, podem se acumular no solo, na água e ao longo da cadeia alimentar.
Animal insetívoro-onívoro, a cuíca-graciosa se alimenta principalmente de artrópodes, incluindo pragas agrícolas, como besouros e cupins. Ao consumir presas contaminadas por inseticidas e herbicidas, pode absorver resíduos dessas substâncias. Esse fenômeno, conhecido como bioacumulação, ocorre quando compostos tóxicos se acumulam progressivamente nos tecidos dos organismos, com possíveis impactos à saúde e ao material genético.

Os pesquisadores identificaram seis tipos de alterações nucleares nas células analisadas. Entre as mais frequentes estão:
Os resultados mostram que indivíduos capturados na borda da floresta apresentaram frequência significativamente maior de alterações genotóxicas em comparação com aqueles do interior dos fragmentos. A composição química do solo, particularmente as concentrações de enxofre e ferro, também esteve associada a tipos específicos de alterações celulares, indicando possível influência de contaminantes ambientais relacionados ao uso intensivo de agrotóxicos na produção agropecuária.
Publicação internacional
O estudo foi publicado na revista científica internacional Environmental Science and Pollution Research, periódico que reúne pesquisas em diversas áreas da Ciência Ambiental, com ênfase nos impactos de agentes químicos e outros fatores de estresse sobre o meio ambiente.
De acordo com os pesquisadores, este é o primeiro estudo realizado diretamente no ambiente natural da espécie, e não em condições de laboratório, para avaliar danos genotóxicos na cuíca-graciosa por meio de células da mucosa bucal em uma paisagem cercada por áreas agrícolas e pastagens.
Impactos ambientais
Os pesquisadores destacam que novos estudos devem ampliar a análise, incorporando outros biomarcadores capazes de identificar danos genéticos e mutações, como já ocorre em pesquisas com roedores na área de ecotoxicologia. Também será necessário investigar com mais detalhe quais poluentes estão presentes no solo e na água, além de avaliar como esses contaminantes circulam na cadeia alimentar. Isso permitirá compreender melhor a relação entre a alimentação da cuíca-graciosa e as alterações celulares observadas.
Segundo os autores, identificar o grau de sensibilidade da espécie a diferentes estressores ambientais é fundamental para confirmar seu potencial como bioindicadora – ou seja, como espécie capaz de sinalizar a qualidade ambiental de uma área. O prof. Wellington Hannibal ressalta que essas informações podem contribuir para o aprimoramento de estratégias de conservação e para a redução dos impactos das atividades humanas sobre a fauna silvestre.
O professor destaca ainda que o CPBioS aprovou junto à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (Fapeg) um projeto que irá investigar os danos genotóxicos em pequenos mamíferos na paisagem fragmentada do sul de Goiás e a importância das áreas protegidas (unidades de conservação) na preservação e saúde da biodiversidade.
Espécie estudada

Discreta e leve, a cuíca-graciosa (Gracilinanus agilis) é um dos menores mamíferos do Cerrado. Ela pode medir até 28 centímetros, sendo mais da metade formada pela cauda fina e preênsil, que a ajuda a se equilibrar nos galhos. Apesar do porte diminuto, a espécie exerce funções ecológicas importantes, especialmente como predadora de insetos.
(Comunicação Setorial|UEG)