Foto: Paulo Bernardino, via Mongabay
O professor Sandro Dutra e Silva, docente da Universidade Estadual de Goiás (UEG), participa da reportagem internacional “O carbono oculto do Cerrado destaca lacunas na política de conservação do Brasil”, publicada pela plataforma Mongabay. Especialista em História Ambiental, o pesquisador é citado ao explicar que, historicamente, o Cerrado foi tratado como um bioma de menor valor ecológico em comparação à Amazônia, percepção que contribuiu para décadas de exploração agrícola intensiva no bioma. Dutra e Silva destaca ainda que os campos do Cerrado são ecossistemas muito antigos e provavelmente desempenharam papel importante na formação da Amazônia.
O pesquisador atua no Centro de Ensino e Aprendizagem em Rede da UEG (Cear|UEG) e nos programas de pós-graduação em Recursos Naturais do Cerrado (Renac|UEG) e Territórios e Expressões Culturais no Cerrado (Teccer|UEG). Sua trajetória acadêmica reúne, entre outros temas, estudos sobre expansão da fronteira agropecuária no Brasil Central, ocupação histórica do Cerrado, colonização, migração e desenvolvimento agronômico do bioma.
A reportagem destaca a pesquisa “Vast, overlooked peat, and organic soils in Brazil’s Cerrado: carbon storage, dynamics, and stability”, conduzida pela ecóloga Larissa Verona e publicada em 2026 na revista New Phytologist. A pesquisadora iniciou o estudo durante o mestrado na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e atualmente atua no Cary Institute of Ecosystem Studies, nos Estados Unidos. Ela liderou os trabalhos de campo em áreas úmidas do Cerrado, principalmente na região do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, realizando medições de gases de efeito estufa e coleta de amostras de solo. Outro pesquisador citado é Rafael Oliveira, ecólogo da Unicamp e coautor do estudo.
De acordo com os pesquisadores, veredas e campos úmidos do Cerrado podem armazenar até seis vezes mais carbono do que áreas equivalentes de florestas amazônicas de várzea. Os cientistas estimam que esses ambientes guardem até 20 bilhões de toneladas métricas de dióxido de carbono. Para chegar a esse resultado, a equipe utilizou amostragens profundas do solo, alcançando até quatro metros de profundidade, além de mapeamento por satélite.
O estudo também demonstrou que esses estoques de carbono são vulneráveis à expansão agrícola e às mudanças climáticas. Durante o período seco, os campos úmidos liberam maior quantidade de gases de efeito estufa, cenário que preocupa os pesquisadores diante do aumento das secas e incêndios no Cerrado.
A reportagem destaca ainda que aproximadamente 55% da vegetação nativa do Cerrado já foi desmatada nas últimas décadas, principalmente para monoculturas agrícolas. Também aponta lacunas na legislação ambiental brasileira: enquanto propriedades privadas na Amazônia devem preservar 80% da vegetação nativa, no Cerrado a exigência é de apenas 20%. Os pesquisadores defendem que áreas úmidas mais ricas em carbono recebam proteção específica, devido à sua importância para a regulação climática global.
”Os campos do Cerrado existiam muito antes da Amazônia e provavelmente desempenharam um papel importante em sua formação”, disse o prof. Sandro Dutra e Silva à reportagem. “Mesmo assim, os ambientalistas continuam a defender o reflorestamento, considerando as florestas como a paisagem mais importante para a saúde ambiental do planeta. Este artigo mostra que precisamos nos concentrar em paisagens diferentes, incluindo aquelas que historicamente consideramos feias”, acrescentou.
Publicação
A Mongabay é uma plataforma internacional sem fins lucrativos dedicada ao jornalismo ambiental e científico, com produção de reportagens em diversos idiomas e atuação em cerca de 70 países. Reconhecida pelo trabalho voltado à conservação ambiental, a organização produz conteúdo baseado em dados científicos e em pesquisas de campo.
(Comunicação Setorial|UEG, com informações de Daniel Shailer|Mongabay)