Pesquisador e artista Marcos Rogério, do Luminav (ao centro), ao lado de Ana Rita Rodrigues (esq.) e Anna Carolina Cruz (dir). Foto: Mayara Varalho
O pesquisador e artista Marcos Rogério, vinculado ao Laboratório Universitário de Memória Audiovisual (Luminav|UEG), assina o design sonoro imersivo da exposição "Expressões", do artista plástico Siron Franco. A mostra, em cartaz na Vila Cultural Cora Coralina com mais de 100 obras produzidas entre as décadas de 1960 e 1980, convida o público a confrontar episódios traumáticos da história sociopolítica do Brasil. O artista, que é egresso do curso de Cinema e Audiovisual da UEG, atualmente finaliza sua pesquisa de Mestrado em Artes, Culturas e Tecnologias na UFG, sob orientação da professora da UEG Dra. Geórgia Cynara.
Seguindo a proposta do projeto de expografia baseado na neuroarquitetura, desenvolvido pela arquiteta Anna Carolina Cruz, Marcos focou em transformar a galeria em uma extensão das obras pintadas por Siron, rompendo intencionalmente com o silêncio tradicional do espaço expositivo. As frentes sonoras desenvolvidas ocuparam quatro, das oito zonas neurocognitivas da expografia, para promover a regulação emocional do público.
A construção dessas sonoridades buscou alinhar a intenção da zona específica com as obras de Siron expostas ali. Marcos, que pesquisa a montagem documental a partir da colagem de arquivos, usou a bagagem teórico-prática para unir diferentes fontes em áudio e criar uma ambientação que caracteriza cada estágio da exposição. Abaixo, o artista destrincha como construiu a ambientação sonora em cada zona.
O túnel da opressão: a asfixia institucional

No corredor inicial, o público é envolvido por uma massa densa composta por toques de recolher, interferências de rádio e a música de Villa-Lobos corrompida por marchas militares e relatos de tortura, recriando a sensação de violência do Estado.
O silêncio radioativo

Nesta seção, a exposição abandona o ruído para abraçar o "Silêncio radioativo", marco zero da tragédia urbana em Goiás. O som atua como uma materialização do luto, onde o estalido persistente de um medidor Geiger pontua os depoimentos reais das vítimas da Rua 57. Entre ventos desérticos e o peso de um violoncelo profundo, as vozes que narram o brilho da morte emergem para denunciar a negligência, transformando a materialidade do chumbo e da terra contaminada em uma experiência de compressão emocional absoluta.
O labirinto do capital: alienação e desterro contemporâneo

O desterro do sujeito contemporâneo é evidenciado pela falência da agência humana. O ambiente sonoro estabelece um embate entre a resistência e o colapso: o canto a cappella é tragado pelo estrondo de bombas e helicópteros, unindo cronologicamente o trauma da guerra à crise global de deslocamento. O balanço das ondas do oceano, em sua variação entre a calma e a agitação, reflete a travessia de corpos físicos sem lugar no mundo, vítimas de uma engrenagem sistêmica que simultaneamente aliena, descarta e afasta.
"Anatomia do abismo"

Nesta zona, a "Anatomia do abismo" ganha contornos de urgência e denúncia através de uma paisagem sonora visceral. Relatos extraídos de documentários e vivências reais de violência doméstica são entrecortados pelo choque metálico de tiros e o ruído estilhaçado de vidros. A inclusão de gritos e interferências de glitch, que emulam a comunicação fragmentada e ruidosa de rádios policiais, reforça a tese de uma neurose coletiva e de uma sociedade que, muitas vezes, normaliza a agressão cotidiana.
A curadoria é assinada por Leopoldo Veiga Jardim e Aguinaldo Coelho, produção da Casa Arte Plena, patrocínio da Óticas Vida, com recursos do Programa Goyazes do Governo de Goiás, por meio da Secretaria de Estado da Cultura.
Serviço - Exposição Expressões
Data: até 6 de julho
Visitação: de segunda a domingo, das 9h às 17h.
Local: Vila Cultural Cora Coralina, Rua 23 com Rua 3, Setor Central, Goiânia, GO.
Entrada: gratuita
(Comunicação Setorial|UEG, com informações do Luminav. Fotos: Mayara Varalho)