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7º Setee: prof. Sandro Safadi propõe repensar as cidades do Cerrado

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A pergunta que abriu a conferência principal do 7º Seminário Teccer e Encontro de Egressos (Setee) da Universidade Estadual de Goiás (UEG) foi também o fio condutor de toda a reflexão apresentada pelo geógrafo Sandro Safadi: existem cidades do Cerrado? "Será que a proposta de imaginar uma cidade do Cerrado é viável? E se elas existirem, apontam para um futuro e para um lugar melhor do que estamos hoje?", questionou.

A partir dessa provocação, o pesquisador conduziu uma análise sobre território, paisagem, identidade, urbanização e disputas de poder que perpassam o bioma e as cidades goianas.

Professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Goiás (IFG) – Câmpus Anápolis, membro do Laboratório de Ciências Sociais e Humanidades do IFG, do Grupo de Pesquisa Espaço, Sujeito e Existência da Universidade Federal de Goiás (UFG) e da Rede Internacional de Estudos Críticos sobre Turismo, Território e Autodeterminação (Reescrita), Safadi foi o responsável pela palestra de abertura do evento, intitulada “Cidades do Cerrado: paisagens, contradições e formas de existir”.

Doutor em Geografia pela UFG, com estágio doutoral na Université Sorbonne Nouvelle Paris 3, na França, o pesquisador apresentou uma reflexão construída a partir de experiências de campo, referências da geografia crítica e décadas de observação sobre as transformações territoriais em Goiás. Seu ponto de partida foi questionar se é possível compreender determinadas cidades como expressões do Cerrado da mesma forma que outras localidades são associadas a elementos marcantes de sua geografia.

“Quando eu penso, por exemplo, na cidade do Rio de Janeiro, é uma cidade do mar, de fato. O samba, a cultura e a arte no Rio de Janeiro seriam diferentes caso o Rio de Janeiro não fosse mar? Manaus seria outra cidade, se não fosse no meio da floresta?”, refletiu.

Mas ao abordar essa relação, o pesquisador fez questão de afastar interpretações deterministas. Antes de avançar na discussão, retomou o debate do determinismo ambiental, formulado pelo geógrafo alemão Friedrich Ratzel no final do século XIX. Ratzel defendia a tese de que o Estado era uma entidade orgânica e, por isso, deveria expandir seu território para integrar povos ligados a uma mesma identidade nacional. Safadi observou que, posteriormente, essa interpretação foi utilizada por Hitler para sustentar a expansão territorial da Alemanha nazista. A referência foi empregada para destacar que sua análise sobre as cidades do Cerrado não atribui aos elementos naturais a capacidade de determinar formas de conduzir a vida ou organizar as culturas, mas busca compreender como território, paisagem e sociedade se relacionam historicamente.

Experiências vividas em diferentes regiões do estado de Goiás serviram como base para a argumentação. O conferencista relatou trabalhos realizados ao longo de mais de três décadas em áreas como o Rio Araguaia e o Nordeste Goiano, onde observou particularidades entre população, território e paisagem.

Ao recordar pesquisas realizadas às margens do Araguaia, o geógrafo destacou que as comunidades ribeirinhas possuem percepções que desafiam classificações tradicionais. “A cognição dos indivíduos do Rio Araguaia produz uma espécie de existência que não cabe numa leitura dicotômica entre campo e cidade. Parece que ali há um outro tipo de existência que merece ser pensada”, afirmou.

Ao longo da palestra, a perspectiva da paisagem avançou: “A paisagem não é a última instância do existir, mas ela é a única possível de onde a gente pode falar. Então, ela é inacabada porque ela não efetivamente explica toda a realidade, mas não há como pensar a realidade passando ao largo da paisagem".

Nesse contexto, o pesquisador destaca o que chama de duas contradições estruturais presentes nos discursos sobre o Cerrado. A primeira está relacionada ao avanço do agronegócio. Segundo ele, a valorização do Cerrado frequentemente surge em oposição à expansão dessa lógica produtiva hegemônica. "A valorização do Cerrado parece navegar nas águas contrárias à força que o agronegócio impera e realiza sobre nós. O Cerrado é esse movimento de resistência ao processo em que o agronegócio se organiza territorialmente por todos os lugares", disse.

A segunda contradição diz respeito à própria cidade. “A cidade pode ser compreendida como espaço de disputa entre racionalidades distintas, mas nessa cidade do agronegócio é uma disputa desigual, com o resultado já definido”, afirma Safadi, embora aponte resistências. "Algumas cidades do Cerrado ainda conseguem produzir narrativas próprias sobre si mesmas. Em contrapartida, outras tornam-se extensões funcionais das racionalidades hegemônicas do agronegócio".

Territorialidades resistentes

A análise foi aprofundada por meio dos conceitos de verticalidade e horizontalidade desenvolvidos pelo geógrafo Milton Santos. De acordo com Safadi, organismos multilaterais, fluxos econômicos globais e grandes interesses corporativos produzem uma espécie de “gotejamento global” que alcança todos os lugares. “Nessa disputa entre o vertical e o horizontal, eu trabalho com um conceito que é de territorialidade resistente”, explicou. “Essas territorialidades conseguem fundar em cada uma dessas cidades, elementos que marcam identidade e a autenticidade".

Para compreender essas resistências, o pesquisador recorre ainda ao conceito de paisagem desenvolvido por autores como Jean-Marc Besse e Milton Santos. Citando o filósofo francês, afirmou que “a profundidade da paisagem é a da existência”, sintetizando a ideia de que compreender uma cidade exige observar as camadas históricas que permanecem inscritas em seus espaços. Nesse sentido, retoma o conceito de "palimpsesto", formulado por Milton Santos, para explicar que as cidades carregam múltiplos tempos sobrepostos. As marcas do passado, segundo Safadi, podem fortalecer narrativas capazes de enfrentar processos de homogeneização e padronização territorial.

Anápolis - identidade e resistência

No decorrer da  conferência, o palestrante voltou seu olhar para Anápolis. O município foi apresentado como um exemplo particularmente interessante por viver transformações urbanas que ainda preservam possibilidades de construção de identidades próprias. O geógrafo destacou especialmente os processos recentes de requalificação de centros urbanos no país e os desafios relacionados à "gentrificação" e à ocupação dos espaços públicos.“O grande desafio urbano para Anápolis é exatamente construir mecanismos para conter o processo de higienização”, afirmou, em referência às discussões sobre direito à cidade desenvolvidas pelo filósofo Henri Lefebvre.

Para o Safadi, o desaparecimento do Cerrado não ocorre apenas com a perda da vegetação nativa. "O Cerrado também pode desaparecer quando desaparecem certas formas de convivência, certos ritmos urbanos e certas possibilidades de encontro e maneiras de habitar a cidade.”

Ao encerrar, completou: "O Cerrado não é apenas resistência nostálgica ao presente. O Cerrado continua produzindo sensibilidades, linguagens, territorialidades, experiências urbanas e forma de imaginar a vida. Talvez seja exatamente isso que ainda aparece nas pequenas cidades, nos conflitos urbanos de Goiânia, nas dúvidas que Anápolis produz e até nas tensões das grandes cidades profundamente atravessadas pelo agronegócio. Talvez o Cerrado sobreviva justamente como coexistência. Não como pureza, não como isolamento, não como retorno ao passado, mas como possibilidade de manter aberta a multiplicidade da existência humana em meio às forças homogenizadoras da organização contemporânea.”

E concluiu retomando a questão inicial que guiou toda a conferência: “Existem cidades do Cerrado? Talvez essa pergunta seja, no fundo, uma outra pergunta: que formas de vida ainda queremos produzir nas cidades do futuro?”.

Mesa-redonda

A mesa-redonda “Estado, geopolítica e política externa: a esfera pública e o exercício do poder” também integrou a programação do primeiro dia do 7º Setee. A atividade focou no debate de capítulos que compõem o livro Estado, geopolítica e política externa: ensaios sobre a esfera pública e o exercício do poder, organizado pelo professor Glauber Lopes Xavier, docente do curso de Ciências Econômicas e do Programa de Pós-Graduação em Territórios e Expressões Culturais no Cerrado (PPG Teccer|UEG).

Mediada pelo prof. Márcio Dourado, doutorando do PPG Teccer, a mesa reuniu autores da coletânea. Glauber Xavier apresentou o capítulo “Marx e Engels no teatro de guerra: considerações sobre o marxismo e a geopolítica”. Na exposição, o pesquisador abordou como elementos da tradição marxista podem contribuir para a discussão sobre fenômenos geopolíticos contemporâneos e para a compreensão de disputas de poder entre estados.

Já o prof. Marco Túlio Martins (PPG Teccer|UEG) apresentou o capítulo “A formação territorial brasileira e a consolidação do Exército: política, modernização e influências estrangeiras”, no qual aborda o papel do Exército na formação do território brasileiro, destacando, entre outros aspectos, sua atuação em processos de integração territorial e as influências estrangeiras que contribuíram para a formação da estrutura militar do país.

Na sequência, o professor Danilo Dalio (IFG) discutiu o capítulo “Incertezas e redefinições: estados e democracias em disputa”. O texto analisa as transformações políticas e institucionais ocorridas desde o fim da Guerra Fria, discutindo o debate entre perspectivas globalistas e neorrealistas sobre o papel do Estado. O autor argumenta que apesar das previsões de enfraquecimento das soberanias nacionais diante da globalização, os estados continuam exercendo papel central na política internacional, ao mesmo tempo em que enfrentam problemas relacionados à crise de representatividade das democracias liberais e ao avanço de movimentos nacional-populistas.

Sobre o Setee

Promovido pelo Programa de Pós-Graduação em Territórios e Expressões Culturais do Cerrado (Teccer|UEG), o 7º Setee busca promover o intercâmbio entre pesquisadores, estudantes e egressos, ampliando os debates sobre cultura, território, sociedade e meio ambiente a partir das múltiplas experiências e pesquisas relacionadas ao Cerrado. A programação segue nesta terça-feira, 3, pela manhã, com a mesa-redonda intitulada “Saberes, sociedade e natureza: biodiversidade, justiça socioambiental e governança participativa no século XXI”. O debate contará com professores, pesquisadores e estudantes vinculados ao programa, além da participação da vereadora Aava Santiago Aguiar, da Câmara Municipal de Goiânia.

À tarde, a programação segue com a mesa-redonda “As construções narrativas e ficcionais sobre o Cerrado”, reunindo docentes e pós-graduandos do Teccer. Em seguida, serão realizadas as apresentações de trabalhos acadêmicos.

 

Os professores Marco Túlio Martins e Danilo Dalio particiam da mesa-redonda "Estado, geopolítica e política externa: a esfera pública e o exercício do poder"

Professores Márcio Dourado e Glauber Xavier debatem temas do livro Estado, geopolítica e política externa: ensaios sobre a esfera pública e o exercício do poder, organizado pelo pof. Glauber 

 O conferencista Sandro Safadi palestra sobre "Cidades do Cerrado: paisagens, contradições e formas de existir” no 1° dia do evento


(Comunicação Setorial|UEG)

Notícia publicada em 03/06/2026

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