Sabastian Sawe. Foto: AFP, via Getty Images
Um dos maiores desafios da história do esporte foi alcançado em 2026, e a ciência já havia previsto isso com anos de antecedência. Um estudo publicado em 2018, com participação do pesquisador Marcelo Magalhães Sales, da Universidade Estadual de Goiás (UEG), antecipou com precisão o ano em que um atleta seria capaz de completar uma maratona (42,195 km) em menos de duas horas.
O feito histórico ocorreu em 26 de abril deste ano, na maratona de Londres, quando o corredor queniano Sabastian Sawe concluiu a prova em 1h59min30s. O resultado confirma a projeção apresentada no artigo científico “How much further for the sub-2-hour marathon?”, que estimava que essa barreira seria superada em 2026 ou 2027.
A pesquisa foi desenvolvida por um grupo internacional que reuniu cientistas do Brasil, Estados Unidos, Suíça e Grécia, incluindo o professor Marcelo Magalhães Sales, coordenador do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Ambiente e Sociedade e docente curso de Educação Física do Câmpus Sudoeste da UEG, com sede em Quirinópolis. O estudo analisou a evolução dos recordes mundiais da maratona ao longo de quase um século, utilizando dados entre 1920 e 2018.
Modelagem científica
Para projetar o momento da quebra da barreira, os pesquisadores aplicaram um modelo matemático baseado em regressão polinomial de segunda ordem. A escolha desse tipo de análise levou em consideração que a evolução do desempenho esportivo não ocorre de forma linear. Ou seja, à medida que os limites fisiológicos são alcançados, os ganhos tornam-se progressivamente menores.
Com base nessa modelagem, o estudo indicou que o tempo sub-2h ocorreria em 2026, considerando dados recentes, como o Breaking 2, projeto esportivo e científico criado pela Nike com o objetivo de quebrar uma das maiores barreiras do atletismo: correr uma maratona (42,195 km) em menos de 2 horas, ou em 2027 (sem esses dados), demonstrando alta consistência preditiva.
Perfil do atleta sub-2h também foi antecipado
Além da previsão temporal, o artigo avançou na identificação das características necessárias para que esse desempenho fosse possível. Segundo os autores, o atleta capaz de romper a barreira das duas horas apresentaria:
O estudo também apontou fatores estratégicos e ambientais determinantes, como a importância de manter ritmo constante (pacing), o uso de vácuo aerodinâmico (drafting) e condições ideais de prova.
Origem e idade previstas
Outro ponto de destaque é que os pesquisadores indicaram o perfil demográfico mais provável do atleta. De acordo com o artigo, o corredor sub-2h teria, muito provavelmente, origem no leste da África, principalmente no Quênia ou Etiópia, idade aproximada de 27 anos e histórico de alto desempenho em provas de resistência. Essas projeções se alinham ao perfil do atleta que alcançou o feito em 2026, então com 30 anos.
Relevância para a universidade pública
A confirmação da previsão ressalta a relevância da pesquisa desenvolvida com participação da UEG no cenário internacional da ciência do esporte. O professor Marcelo Magalhães explica que a quebra da barreira das duas horas sempre foi tratada como um limite simbólico e fisiológico do corpo humano.
Por outro lado, segundo ele, com o advento tecnológico que levou ao surgimento dos tênis com placa de carbono a partir de 2016, a possibilidade do rompimento da barreira de duas horas passou a ser fortemente considerada. “Isso despertou interesse em nos debruçarmos sobre a literatura e, então, investigar a data que essa barreira poderia ser superada e, mais, especular as métricas fisiológicas que esse super atleta deveria possuir e assim traçar um perfil desse sujeito”, explica.
O professor explica que, a partir deste momento, passa a trabalhar com uma nova estimativa, baseada na teoria dos valores extremos, aplicada a dados heterogêneos para projetar o limite do desempenho humano em maratonas. Segundo ele, considerando esse novo parâmetro, que parte do tempo de referência de 1h59min30s, as estimativas indicam a possibilidade de atingir cerca de 1h54min. ”Ressalto que a participação da UEG nessa pesquisa denota o quanto nós, docentes e cientistas, estamos inseridos em pesquisa de ponta no cenário global”, reitera.
O artigo está disponível em acesso aberto no PubMed Central (PMC), repositório digital gratuito que reúne artigos científicos completos nas áreas de biomedicina e ciências da vida. Ele é mantido pela National Library of Medicine (NLM), que faz parte dos National Institutes of Health (NIH). O material já é considerado referência no debate sobre os limites da performance esportiva. Leia aqui.

Autor da pesquisa pela UEG, professor Marcelo Magalhães desenvolve testes de desempenho esportivo no Câmpus Sudoeste, em Quirinópolis

Estudo foi publicado em parceria com os pesquisadores Pantelis Theodoros Nikolaidis, Caio Victor Sousa, Beat Knechtle e Thomas Rosemann, e está disponível no PubMed Central (PMC), repositório mantido pela National Library of Medicine (NLM)
(Comunicação Setorial|UEG)