A Unidade Universitária de Iporá da Universidade Estadual de Goiás (UEG) desenvolve, desde 2024, uma iniciativa que articula formação acadêmica, produção de conhecimento e atuação em escolas públicas com foco na educação antirracista. O projeto de extensão "O racismo que atravessa corpos e subjetividades: diálogos decoloniais para promover o direito, diversidade e existência", coordenado pela profa. Maria Geralda de Almeida Moreira, integra o programa "Cidadania, direitos e diversidade" e reúne docentes e estudantes de diferentes cursos.
A proposta parte da construção de um espaço de reflexão crítica, no qual experiências, trajetórias e perspectivas distintas são mobilizadas para compreender como o racismo se estrutura e se reproduz socialmente. Mais do que a transmissão de conteúdos, o projeto busca promover um processo formativo que incentive participantes a reconhecerem, em si e no coletivo, práticas e mecanismos que sustentam desigualdades históricas.
Segundo a profa. Maria Geralda, o racismo é abordado como uma prática estruturante das relações sociais, que se manifesta tanto de forma explícita quanto em dimensões mais sutis, afetando identidades e subjetividades. A compreensão dessas múltiplas formas é considerada central para o desenvolvimento de práticas educativas comprometidas com a equidade.
A iniciativa também dialoga com reflexões de intelectuais como Abdias Nascimento, cuja análise compara o racismo a um "camaleão", capaz de se adaptar e se camuflar em diferentes contextos históricos e sociais. Essa perspectiva orienta o projeto a investigar não apenas manifestações evidentes, mas também práticas naturalizadas no cotidiano escolar.
"A ideia do projeto é discutir o racismo enquanto uma prática estruturante das relações sociais e entender como ele se manifesta também nas sutilezas, impactando identidades e subjetividades", afirma a profa. Maria Geralda. "Só entendendo esse movimento de adaptação e permanência do racismo é que conseguimos promover uma educação antirracista", completa.
Formação acadêmica e atuação nas escolas
As ações são organizadas em duas etapas principais. Na primeira, estudantes da UEG, especialmente dos cursos de História e Direito, participam de um processo formativo baseado em leitura, debate e análise crítica de produções teóricas. Esse percurso inclui autores como bell hooks, Frantz Fanon, Djamila Ribeiro e Kabengele Munanga, em uma abordagem que a professora define como "desobediência epistêmica".
Na segunda etapa, parte desse conteúdo é levada a escolas públicas da região de Iporá por meio de oficinas e atividades educativas. A iniciativa já alcançou instituições em um raio de até 100 quilômetros, ampliando o debate sobre relações étnico-raciais no ambiente escolar.
O foco na juventude está relacionado ao entendimento de que esse público ocupa papel estratégico na transformação social, especialmente por estar em processo de formação identitária. Ao atuar nesse segmento, o projeto busca contribuir para o enfrentamento de violações de direitos e para a promoção do respeito à diversidade no contexto educacional.
Cartilha amplia alcance das ações
Como forma de ampliar o impacto das atividades presenciais, o projeto resultou na produção da cartilha "Diálogos para uma educação antirracista". Elaborado e diagramado pelos próprios estudantes, sob supervisão docente, o material sistematiza conteúdos discutidos ao longo da formação.
A publicação reúne dados sobre os efeitos do racismo na infância e na juventude, apresenta diferentes tipologias, como racismo estrutural, institucional e ambiental, e propõe práticas pedagógicas voltadas ao enfrentamento dessas situações. Também inclui sugestões de livros, filmes e recursos didáticos que podem ser incorporados ao cotidiano escolar.
A cartilha foi disponibilizada para escolas parceiras e para a rede municipal de educação, com o objetivo de subsidiar o trabalho de professores e ampliar o alcance do projeto para além das oficinas. A proposta é contribuir para que práticas discriminatórias sejam identificadas e nomeadas, superando interpretações que as reduzem a situações de "brincadeira" ou "bullying".
Continuidade e perspectivas
Com duração prevista até 2026, o projeto segue em desenvolvimento com a participação média de oito estudantes, número ajustado para viabilizar as etapas de produção coletiva de materiais. Ao longo desse período, a iniciativa busca consolidar a UEG como referência regional na discussão sobre direitos, diversidade e relações étnico-raciais.
Entre as ações previstas para o último ano do ciclo está a realização de um evento que marcará duas décadas de atividades relacionadas ao Dia da Consciência Negra na unidade. A proposta inclui a articulação com escolas, entidades locais e comunidades quilombolas, além da produção de registros que sistematizem a trajetória dessas ações.
Outra frente em estudo é a ampliação da cartilha, com revisão editorial e possibilidade de publicação em formato mais estruturado, visando maior circulação do material.
Ao articular ensino, pesquisa e extensão, o projeto reforça a atuação da universidade pública na promoção de debates sobre direitos humanos e diversidade. A iniciativa parte do entendimento de que reconhecer e nomear o racismo é condição fundamental para o seu enfrentamento e para a construção de práticas educacionais comprometidas com a dignidade humana.
(Comunicação Setorial|UEG)