
No início de março, a Universidade Estadual de Goiás (UEG) celebrou a formatura de duas estudantes estrangeiras do curso de Cinema e Audiovisual, em Goiânia. Gbetondji Oceane Ludmila Peace Adagbe e Samantha Ilmelda Charlette Kpatoukpa, naturais do Benim, país da África Ocidental, concluem um ciclo de quatro anos marcado por desafios linguísticos, o impacto da pandemia de covid-19 e uma experiência de formação atravessada por intercâmbio cultural.
Selecionadas por meio do Programa de Estudantes-Convênio de Graduação (PEC-G), elas passam a integrar o conjunto de alunos estrangeiros que já cursaram ou ainda realizam graduação na UEG, dentro das ações de internacionalização da instituição.
O caminho até o Brasil
A vinda ao Brasil não fazia parte dos planos iniciais das estudantes. Samantha, que cursava Psicologia e já tinha formação em Audiovisual no Benim, tentou inicialmente estudar no Canadá, mas precisou mudar os planos após ser vítima de um golpe. Posteriormente, conheceu o PEC-G por indicação de um amigo e se inscreveu. Apesar de ter indicado cidades como Belo Horizonte e São Paulo, foi direcionada para Goiânia.
Ludmila, por sua vez, estava em Gana estudando inglês quando recebeu o incentivo de um amigo para tentar uma bolsa de estudos no Brasil. Mesmo tendo preferência por países de língua inglesa, decidiu participar do processo seletivo. "Talvez seja o país que você tem que passar primeiro", relembra, ao citar o conselho do pai.
Desafios e adaptação
A chegada ao Brasil coincidiu com o início da pandemia. Samantha desembarcou em fevereiro de 2020, duas semanas antes da suspensão das atividades presenciais. O contexto afetou diretamente o processo de adaptação, especialmente no aprendizado da língua portuguesa, que ocorreu inicialmente de forma remota.
As duas relatam que o início das aulas foi um dos momentos mais desafiadores. A dificuldade de compreensão do idioma impactou o acompanhamento das disciplinas, situação que foi superada ao longo do curso, com apoio de professores e a gradual familiarização com a língua.
A adaptação cultural trouxe choques significativos. Ludmila e Samantha notaram diferenças na forma como os estudantes brasileiros tratam os professores, algo que consideraram desrespeitoso comparado aos costumes do Benim. Além disso, a vivência no Brasil trouxe a consciência sobre questões raciais. "Foi quando a gente chegou aqui que a gente aprendeu sobre racismo, sobre ser uma mulher preta; eu nem sabia que isso existia", revelou Ludmila.
Formação e experiências na UEG
Apesar das dificuldades iniciais, Ludmila e Samantha destacam o acolhimento institucional e o suporte oferecido pela universidade, especialmente por meio de bolsas de permanência para estudantes estrangeiros, consideradas fundamentais para a continuidade da graduação.
Ao longo do curso, participaram de atividades práticas e desenvolveram projetos audiovisuais. Como trabalho de conclusão, Ludmila produziu o documentário autobiográfico "CICA", enquanto Samantha realizou o filme “Além do Dinheiro”. As duas também tiveram experiências profissionais durante a formação, incluindo estágios e atuação em projetos na área.
Para a coordenadora do curso de Cinema e Audiovisual da UEG, Ceiça Ferreira, a presença de estudantes internacionais contribui para ampliar as perspectivas formativas dentro da universidade. "Isso é significativo para a trajetória profissional delas e para o nosso curso, pois com uma postura sempre pró-ativa, as duas atuaram em vários projetos, laboratórios e atividades de realização audiovisual. Tenho uma grande admiração não apenas pelos trabalhos desenvolvidos, mas pelas profissionais que se tornaram", afirma.
Planos futuros
Com a conclusão da graduação, as estudantes dão sequência às trajetórias acadêmicas e profissionais. Samantha atua em uma produtora audiovisual em Goiânia. Ludmila, que desenvolve atividades no GoiásTec, aguarda resultados de processos seletivos para programas de mestrado na mesma área.
Mesmo com planos em aberto, ambas indicam a intenção de seguir vinculadas ao campo do audiovisual e à formação acadêmica. A experiência no Brasil, segundo elas, deve continuar influenciando seus caminhos futuros. "Esses quatro anos me transformaram muito”, resume Ludmila.

(Comunicação Setorial|UEG)