Nesta semana, a Universidade Estadual de Goiás (UEG) realiza coleta de dados socioambientais, territoriais e econômicos no âmbito do Programa Araguaia Vivo 2030, na cidade de Aruanã (GO). A ação integra a Atividade 4 – “Mobilização, sensibilização e capacitação de atores locais” – e reúne pesquisadoras, estudantes e projetos institucionais parceiros, em uma atuação conjunta no território. Aruanã foi definida como município-piloto das ações, que posteriormente deverão ser ampliadas para outras cidades da bacia do Araguaia.
A frente é coordenada pela professora Andreia Juliana Rodrigues Caldeira e conta com a participação das docentes da UEG Josana de Castro Peixoto e Karine Obalhe Piorski, reunindo uma equipe formada por 12 pessoas. O grupo inclui estudantes de graduação dos cursos de Farmácia (4), Economia (1) e Ciências Biológicas (1), um mestrando do Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências (PPEC) e dois do PPG Territórios e Expressões Culturais no Cerrado (Teccer) – bolsistas vinculados ao Araguaia Vivo, ao Programa de Pesquisa em Biodiversidade Araguaia (PPBio Araguaia) e ao projeto "Coletivo Mulheres Cientistas em Rede".
Coordenadora da Atividade 4, Andreia Juliana explica que o grupo estruturou diferentes frentes de coleta de dados, sempre com diálogo direto com a população local. Uma delas, relacionada à temática socioambiental e territórios sustentáveis, ocorre em escolas de ensino fundamental II e médio da cidade, para compreender como temas ligados ao rio Araguaia e ao Cerrado estão inseridos no currículo escolar. O levantamento inclui análise de materiais didáticos e escuta dos professores sobre critérios e conteúdos prioritários para o desenvolvimento de recursos pedagógicos contextualizados à realidade local e adequados a cada nível educacional. A metodologia aplicada em Aruanã servirá de referência para replicação nas demais localidades atendidas pelo programa.
Outra linha de investigação trata do protagonismo feminino e sustentabilidade ambiental. A equipe realiza entrevistas com mulheres de diferentes áreas, como saúde, educação, meio ambiente, vinculadas ao poder público, além de empresárias, comerciantes e donas de casa da comunidade. A proposta é identificar de que maneira essas mulheres influenciam práticas e visões relacionadas ao meio ambiente e como podem fortalecer iniciativas de educação ambiental. “Isso quer dizer verificar quanto já está presente nessas mulheres um pensamento de educação ambiental”, explica a professora.
Andreia destaca ainda o esforço de continuidade do projeto e a construção de uma confiança estabelecida com a comunidade ao longo do trabalho, aspecto considerado fundamental para a expansão das ações para outros municípios da bacia. “O tempo inteiro a gente está mostrando para a comunidade que estamos fazendo levantamentos, mas vamos retornar depois". Segundo ela, o objetivo é desenvolver produtos e materiais que façam sentido para os moradores, dentro de uma perspectiva de ciência cidadã e participativa, criando um modelo de atuação adaptável às realidades locais. “É levar em consideração o que é importante para a comunidade, para que a gente desenvolva estratégias que fortaleçam a comunidade tanto na área da saúde, quanto no meio ambiente e educação”, reitera.
Ecologia dos saberes
Na subatividade conduzida pela professora Josana de Castro Peixoto, o foco é a ecologia de saberes e o reconhecimento das comunidades tradicionais, com destaque para o povo Iny Karajá, a partir de um amplo levantamento de dados junto à comunidade indígena. A equipe investiga aspectos da educação indígena, bem como seus saberes e costumes tradicionais, com ênfase no mapeamento e registro de plantas medicinais.
Durante a imersão, os pesquisadores realizaram entrevistas com professores indígenas, mulheres, homens e anciãos detentores de conhecimentos sobre a flora medicinal do Cerrado. “Dentro da ecologia de saberes, é muito importante reconhecermos e identificarmos os grupos sociais, as comunidades tradicionais que temos aqui no município de Aruanã. Nesses grupos, temos muitos que estão na invisibilidade como comunidade tradicional. Uma delas é a comunidade indígena Iny Karajá, que tem uma aldeia urbana e mais dois territórios deles, um na Ilha do Bananal e outro em uma área de proteção ambiental próxima ao Araguaia. Resgatar e documentar esse conhecimento e saberes que trazem em relação à flora medicinal indígena tem sido o nosso objetivo principal nessa imersão”, explica a professora Josana. “Assegurando todos os princípios éticos da pesquisa científica, nós temos conversado com os especialistas sobre esse conhecimento tradicional”, completa.
Segundo a professora, foram mencionadas diversas plantas do Cerrado utilizadas no processo de cuidado e nas práticas tradicionais relacionadas à saúde e à doença. Entre elas, estão o baru, o pequi, o tamboril e o pacari, plantas presentes no bioma e reconhecidas por seus usos medicinais.
Entre as preocupações relatadas está o risco de perda desses saberes entre as gerações mais jovens, inclusive indígenas. Dessa forma, as espécies mencionadas foram coletadas para compor uma coleção de referência que integrará o herbário da UEG, registrando oficialmente a flora medicinal indígena Iny Karajá. “Pensar a ocorrência dessas espécies em nível de flora medicinal indígena deve ser uma das prioridades”, ressalta a professora, destacando que a iniciativa está alinhada à Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos, que prevê o resgate e a documentação dos saberes tradicionais.
Bases bio-socioeconômicas e sustentabilidade da água
A dimensão econômica do projeto é conduzida pela professora Karine Obalhe Piorski, do curso de Economia da Unidade Universitária CSEH - Nelson de Abreu Júnior da UEG, em Anápolis. A pesquisadora explica que o objetivo é compreender de que forma a água, o meio ambiente, a economia local e a vida das pessoas estão interligados. Segundo ela, quanto maior a interconexão entre esses elementos, mais consistente é a base bio-socioeconômica do município, indicando que as atividades econômicas e o modo de vida da população tendem a estar alinhados à sustentabilidade.
Nesta etapa, a equipe ouviu diferentes grupos sociais, formados por pessoas que dependem diretamente do rio para subsistência e geração de renda. Foram aplicados questionários com moradores urbanos, ribeirinhos, empreendedores, representantes do poder público e a concessionária de água do município. O objetivo é analisar como o recurso hídrico sustenta a economia local, por meio do turismo, da pesca, do comércio e dos serviços, além de avaliar se o uso da água é sustentável em longo prazo e se existem desigualdades ou fragilidades que possam comprometer o desenvolvimento.
“Não estamos aqui com o objetivo de fiscalizar, nem avaliar individualmente. O que a gente se propõe é entender as perspectivas de desenvolvimento; quanto isso está ancorado com a sustentabilidade da água”, explica a professora. “A participação de cada grupo tem sido fundamental. A gente já tem percebido isso pela aplicação dos questionários”, enfatiza.
O resultado será um diagnóstico técnico estruturado, voltado à identificação de caminhos para fortalecer o desenvolvimento sustentável de Aruanã como território integrado ao rio Araguaia.
Integração institucional
A articulação entre o Araguaia Vivo, o PPBio Araguaia e o projeto de alcance nacional “Mulheres Cientistas em Rede”, coordenado pela professora Andreia Juliana a partir da UEG, estrutura a abordagem interdisciplinar e institucional na região. “A partir dessas frentes, começamos a integrar projetos que fizessem sentido e, por incrível que pareça, todos eles se integram, porque estamos alinhados em um mesmo pensamento”, destaca a profa. Andreia.
As atividades desta semana também integraram meninas e mulheres vinculadas aos Clubes de Ciências implantados pelo Coletivo, envolvendo três professoras bolsistas e 15 estudantes de Iniciação Científica Júnior, o que amplia o protagonismo das participantes nas pesquisas desenvolvidas no município.
Assim, ressalta a profa. Andreia, por meio da escuta ativa, da produção sistematizada de dados e da devolutiva qualificada à comunidade, as iniciativas da UEG contribuem para construir estratégias que fortalecem a sustentabilidade socioambiental na bacia do Araguaia.





Pesquisadores da UEG, incluindo professoras e estudantes, fazem levantamento de dados socioambientais, econômicos e de saberes tradicionais com a população local em Aruanã (GO)
(Comunicação Setorial|UEG)