Perguntaram-me qual é o certo.
Geralmente, as pessoas usam as duas expressões, indistintamente. E isso não é exatamente um ERRO.
Mas pode haver uma sistematização e uma das formas ser escolhida como a mais adequada.
É o que faz o professor Sérgio Nogueira Duarte da Silva (aquele do programa “Soletrando”, da TV Globo), em seu livro O português do dia-a-dia, Editora Rocco. Ele explica:
FIM – É o contrário de “início”: “fim do jogo”; “fim de semana”; “fim do campeonato”; “fim do ano” (sem hífen).
FINAL – É o contrário de “inicial”: “jogo final”; “parte final”; “acerto final”... A expressão “final feliz” é aceitável.
Agora vamos a umas considerações gramaticais para maior entendimento:
A) “Fim” é um substantivo.
Observe que “fim” aparece em expressões compostas, e vem seguido de uma preposição, que por sua vez é seguida de um outro substantivo. É sempre fim de alguma coisa.
Em “fim de ano” temos um SN (sintagma nominal) complexo. Existe um substantivo nuclear (“fim”) que recebe uma especificação por meio de um SP (sintagma preposicionado). No SP, tirada a preposição, resta outro SN, formado de um outro núcleo, que é outro substantivo nuclear: “ano”.
O SN complexo é assim: há dois (ou mais) SN ligados por preposição. O fenômeno é típico das “locuções” adjetivas” (e também dos “complementos nominais”): amor de mãe, doce de leite, mesa de madeira, tarde de sol, noite de lua, carro do papai, loja de brinquedos, turno da tarde, demissão do funcionário, fim de ano, etc.
A “locução adjetiva” (e o “complemento nominal”) vem iniciada com preposição (por isso é um SP) e tem a finalidade de adjetivar, qualificar, especificar o substantivo de trás.
B) “Final” é um adjetivo.
“Final” também aparece em um SN, mas não como palavra nuclear e sim como palavra periférica. Vem ao redor de um núcleo. “Final” está adjetivando um substantivo (jogo, parte, acerto, prova).
C) Geralmente a língua trabalha por analogia. O adjetivo oposto a “final” é “inicial”.
Ora, se não se diz “inicial de/do ano”, também não se deve dizer (pelo menos gramaticalmente não é a construção mais adequada) “final de/do ano”. Portanto “fim de ano” é a expressão mais condizente com as estruturas gramaticais.
D) Acontece, porém, que as palavras podem ser substantivadas. E o adjetivo “final” já foi substantivado. É também um substantivo, aparecendo em estruturas preposicionadas (SN complexo), como ocorre com a palavra “fim”. Veja alguns exemplos dos dicionários: O final da ópera é extraordinário. (Aurélio) / o final do caderno / o final da rua / o final do mês (Houaiss). Por isso as duas expressões, “fim de ano” e “final de ano” são usadas indistintamente, tomando-se uma pela outra, como equivalentes, como sinônimas.
E) Em “final feliz”, expressão “aceitável” segundo o professor Sérgio Nogueira Duarte da Silva, há uma questão fonética: “fim feliz” não tem uma pronúncia muito boa, porque os dois fonemas /f/ ficam muito próximos. Já a expressão “final feliz” é mais eufônica (de “eufonia” = “som agradável”) pela presença da sílaba “-nal”, que distancia os dois fonemas /f/. Por isso, o gramático (e a língua) faz uma deferência para essa expressão. Ela pode ser usada, sendo “aceitável”.
F) E agora"... Mesmo com tantas considerações gramaticais, o povo continua usando as duas expressões. Ainda mais porque “final” é também substantivo.
E) Bem, “pra não contrariar”, usemos “fim de ano”. Porém, se você escorregar no “final de ano”, não se preocupe tanto. Afinal, no fim (ou no final") tudo acaba bem...