O professor de Educação Física Marcus Jary acompanha desde 2005 a participação das torcidas organizadas no futebol goiano. Ele relaciona a construção de Goiânia com parte do imaginário simbólico que permeia a rivalidade entre as torcidas de Vila Nova e Goiás. Isso porque as diferenças sócio-culturais entre vilanovenses e esmeraldinos têm origem na desigualdade entre as regiões Central (onde nasceu o Goiás) e Leste (reduto do Vila Nova). “Nascido no plano piloto de Goiânia, o Goiás não poderia deixar de se influenciar pelo espírito empreendedorístico e visionário da recém-criada capital. Enquanto o Vila Nova é o produto da primeira invasão registrada na capital e das aspirações das classes populares”, afirma o professor. “As diferenças entre as duas regiões geraram estilos de vida distintos que serviram como combustível para a rivalidade que se criou entre os dois clubes, sobretudo a partir dos anos 70”, completa Marcus Jary. Para ele, a violência das torcidas organizadas passa pela ausência do Estado e das instituições civis na formação dos jovens.
PERFIL:
Marcus Jary
Marcus Jary Nascimento, de 39 anos, nasceu em Cuiabá. Evangélico, casado e pai de uma filha, ele mora em Goiânia desde 1998 e é professor de Educação Física da Eseffego/UEG desde 2001. Mestre em Educação, o seu projeto de pesquisa para a UEG foi sobre as articulações entre o padrão de sociabilidade de torcidas organizadas e a construção de Goiânia. Ele começou a pesquisa em 2005.
Elder Pereira Dias – Uma das justificativas para não se implantar a torcida única nos clássicos Goiás x Vila Nova é a de que isso limita o direito do torcedor de ir ao jogo. Mas muitos vilanovenses e esmeraldinos, por medo de confrontos, já se tolheram esse direito. A torcida única – como medida transitória – não é uma forma de resgatar o torcedor afastado desses jogos?
É uma medida drástica e radical a torcida única. Ela já foi utilizada nos países europeus quando o problema da violência escapou do controle das autoridades. É uma medida emergencial. Ela pode até ser uma alternativa, mas é de curtíssimo prazo e que não se sustenta. A medida ainda é injusta, pois está punindo as pessoas que não têm um envolvimento direto com os incidentes violentos nos estádios.
Todavia, em situações extremas, a torcida única é uma forma de responsabilizar aqueles que se beneficiam economicamente do espetáculo. Com a queda na arrecadação, os clubes e as federações tendem a se empenharem, juntamente com as autoridades públicas, para resolver os problemas de violência nas torcidas organizadas.
É preciso fazer uma análise dos pros e contras da medida, em relação ao contexto atual, com a Federação Goiana de Futebol, o Ministério Público, as torcidas organizadas, os clubes e os órgãos de segurança pública.
Rodrigo Cesar Medeiros - Não seria mais fácil acabar com as torcidas organizadas? Você acabaria com um meio dos marginais se reunirem “oficialmente”.
Acabar com as torcidas organizadas não vai resolver o problema da violência. Isso em virtude do apelo que tem o futebol, enquanto cultura popular, e por conta do ordenamento jurídico brasileiro que garante aos cidadãos o direito de associação. É possível extinguir as torcidas organizadas, todavia é ineficiente, porque elas se organizarão sob outras denominações. Isso já aconteceu em Goiás.
A atual Esquadrão Vilanovense era o Comando Vermelho e a Força Jovem, a Inferno Verde. Isso já ocorreu também em São Paulo com as torcidas Mancha Verde e Independente, que se envolveram na batalha do Pacaembu em 1995, foram extintas e depois se reorganizaram.
O que de fato precisa ocorrer é um controle dos órgãos de segurança pública e das federações sobre as torcidas organizadas. É preciso ter cadastro dos membros atualizado e monitoramento das atividades desenvolvidas. A Federação Goiana de Futebol tem de ter cadastro desses torcedores e controle da frequência deles nos estádios, o que pode ser feito por meio da tecnologia.
Acabando com as torcidas organizadas, eu tenho dúvidas se o mercado do futebol se sustente, porque elas é que garantem o espetáculo. Fica evidente, portanto, que é preciso haver mais envolvimento dos clubes e das federações no combate à violência. Se é uma mercadoria rentável, eles precisam oferecer segurança aos consumidores.
Pedro Almeida – A causa das brigas entre as torcidas seria a baixa autoestima dos torcedores? Eles precisam se apegar em algo para se sentirem maiores, melhores ou completos? Mesmo algo ilícito ou inaceitável?
De alguma forma você tem razão. Todo indivíduo necessita de vivenciar, de forma eficiente, uma inserção nas organizações de cunhos político, cultural e social responsáveis pela estruturação de um Estado democrático e de direito.
A questão é que temos assistido, no Brasil, à uma ineficiência ou desintegração, em alguns casos, de instituições, entidades e organizações responsáveis pela relação indivíduo, Estado e sociedade, tais como família, escola, igreja, movimentos sociais e órgãos governamentais.
O quadro descrito aqui provoca uma forte desconstrução do tecido social, gerando indivíduos pouco afeitos a valores fundamentais, como respeito à vida, liberdade de expressão, respeito ao patrimônio público e integridade física. São bens sistematicamente atacados pelos atos ilícitos das torcidas organizadas.
Para algumas linhas de interpretação do problema, a ausência das instituições tradicionais na vida dos indivíduos tem contribuído para a perda de identidade social, cultural e psicológica, que poderíamos relacionar com a questão da autoestima.
Para boa parte da juventude que é desassistida pelas instituições da sociedade, o perfil de organização grupal de torcida organizada é uma forma bastante atraente de afirmação individual e coletiva.
Beatriz Terca – Por que as torcidas são tão violentas?
No primeiro nível de análise, as condições para o surgimento da violência das torcidas organizadas estão nas precárias condições de vida de boa parte das periferias das capitais brasileiras. Todavia, temos vistos que a violência tem atingido níveis alarmantes e isso se explica pela característica do futebol enquanto esporte de massa. Os grandes contingentes humanos envolvidos nos espetáculos de futebol criam o que chamamos de grupo psicológico.
O indivíduo, quando está na multidão, tende a abrir mão dos seus próprios valores para assumir os temporariamente estabelecidos pelo grupo. Isso provoca um enfraquecimento das suas faculdades mentais, tornando-o mais agressivo, heroico e impulsivo, levando-o, de maneira geral, a assumir comportamentos bárbaros.
Essa estrutura temporária de valores é reforçada pela paixão à equipe. Sendo assim, tudo que se colocar entre o torcedor e o objeto de sua paixão é visto como indesejável e hostil.
Fernanda Ferreira – O que de bom tem sido produzido pelas torcidas organizadas no contexto esporte e lazer da sociedade goiana?
Não vamos falar o que tem de bom, mas o que potencialmente as torcidas organizadas poderiam fazer de bom. As agremiações de torcedores poderiam otimizar o significativo espaço que ocupam na vida das pessoas para desenvolver experiências de cunho sócio-educativo para o lazer.
Dado o alto valor que o futebol tem para a cultura brasileira, poderia ser usado como um potencializador de projetos sociais voltados para a juventude, tais como as campanhas de profissionalização, a preservação do patrimônio público, produção de cultura popular e palestras sobre Goiânia e o futebol goiano.
Antônio Ricardo – A profissionalização do esporte, nos últimos 20 anos, trouxe um olhar mais para a competição (e menos para o jogo em si), tornando-o como um campo de batalha também entre os jogadores, no qual quem vence é mais reconhecido, melhor remunerado. Seria essa violência entre as torcidas reflexo dessa mercadorização do futebol?
Em certos aspectos, sim. A profissionalização do futebol no Brasil gera cifras astronômicas, o que leva clubes e atletas a travarem uma verdadeira guerra dentro e fora dos estádios por bons resultados. Esse clima de guerra fica latente na simbologia que permeia o futebol: matador, artilheiro, animal, batalha... De certa forma, a mídia, enquanto meio de divulgação do espetáculo, também poderia ocupar um papel importante, reformulando a forma como noticia os episódios de violência e estimulando a paz por meio de campanhas educativas.
Boa parte dos tumultos registrados dentro e fora dos estádios são catalisados por trocas de ofensas, provocações entre os jogadores e dirigentes às véspera dos jogos.
Hamilton Tavares – O senhor fala da relação entre a fundação de Goiânia e a rivalidade entre Goiás e Vila Nova. O que tem a ver com a violência nos estádios goianos?
Em primeiro lugar, não se pode falar de uma relação direta, mas de uma correlação entre a construção da cidade de Goiânia e a rivalidade entre Vila Nova e Goiás. Entretanto, as origens da rivalidade podem ser situadas no processo de execução do projeto urbanístico da capital goiana. O plano piloto da construção da cidade foi executado na região central – onde viviam a elite social e a política da cidade, e funcionários públicos – dentro dos mais modernos padrões arquitetônicos. É nessa região que surge o Goiás, ambientado em meio a um forte ideário de modernização, empreendedorismo e desenvolvimento.
Do lado direito do Córrego Botafogo surge a primeira invasão da cidade, promovida pelos trabalhadores que vieram construir Goiânia. Essa invasão dá origem à atual Vila Nova, para assentar esses trabalhadores vindos de Minas Gerais e, sobretudo, da Bahia. A região do Botafogo (área Leste da cidade) representava, portanto, a cidade não planejada. Áreas tão distintas do ponto de vista social, político e econômico vão gerar, também, ambientes culturais e estilos de vida diferentes, que passaram a se confrontar na medida em que se acirra a rivalidade entre as equipes.
Esse processo socio-cultural de rivalização é recriado por meio dos anos, preservando a sua essência como um legado simbólico, que é apanhado pelas torcidas organizadas, servindo não como único, mas como um importante elemento de coesão grupal e identitária. Esse é parte do processo em que as torcidas organizadas se rivalizam, podendo, a depender de outros fatores, promover atos de atrocidades.
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