As tocas escavadas pelo tatu-canastra (Priodontes maximus), maior tatu do mundo e espécie ameaçada de extinção, funcionam como verdadeiros refúgios naturais no Cerrado. Além de abrigar o próprio animal, essas estruturas subterrâneas são usadas por aves, mamíferos, répteis e anfíbios para descanso, proteção contra o calor e fuga de predadores.
É o que revela um estudo da Universidade Estadual de Goiás (UEG) realizado na região de Quirinópolis, sul do estado, que identificou 32 espécies de vertebrados utilizando as tocas do tatu-canastra em diferentes momentos e comportamentos, como para abrigo, alimentação e permanência prolongada.
A pesquisa foi conduzida pela bióloga e mestra em Biodiversidade e Conservação Luana Flores, sob a orientação do professor Wellington Hannibal, coordenador do Laboratório de Ecologia e Biogeografia de Mamíferos e do Centro de Pesquisa em Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos da UEG, no Câmpus Sudoeste, com sede em Quirinópolis.
O estudo utilizou armadilhas fotográficas instaladas no Refúgio de Vida Silvestre Serra da Fortaleza e em áreas do entorno. Ao longo de cerca de sete meses, os pesquisadores monitoraram 20 tocas ativas de tatu-canastra, reunindo 654 registros de animais.
Entre as espécies que mais utilizaram as tocas está o udu-de-coroa-azul (Momotus momota). As imagens mostram o pássaro entrando repetidamente nas escavações, muitas vezes carregando folhas e alimento - comportamento que indica o possível uso das tocas como local de nidificação (construção de ninhos).
Mamíferos
A classe mais observada foi a dos mamíferos. Além do cateto (Dicotyles tajacu), destacaram-se o tatu-galinha (Dasypus novemcinctus) e o próprio tatu-canastra, que entraram nas tocas em mais da metade dos registros, permanecendo nelas por longos períodos. A anta (Tapirus terrestris) também foi registrada no estudo, principalmente em interações próximas às entradas das tocas, associadas a deslocamento e marcação territorial.
Outras espécies frequentemente registradas foram cutia (Dasyprocta azarae), tamanduá-mirim (Tamandua tetradactyla), gambá-de-orelhas-brancas (Didelphis albiventris), tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla) e macaco-prego (Sapajus libidinosus), além de aves como jacu-de-barriga-castanha (Penelope ochrogaster), juriti-pupu (Leptotila verreauxi), jaó (Crypturellus undulatus) e mutum-de-penacho (Crax fasciolata). Répteis e anfíbios apareceram em menor número, mas ainda assim utilizaram as tocas como abrigo térmico e proteção. Em vários casos, os registros mostraram comportamentos específicos, como repouso prolongado, busca por alimento e marcação territorial nas entradas das escavações.
Os dados indicam que algumas espécies não apenas passam pelas tocas, mas dependem diretamente dessas estruturas para sobreviver em períodos de calor intenso, de escassez de abrigo ou de maior risco de predação.
De acordo com os pesquisadores, esse conjunto de interações reforça o papel do tatu-canastra como um “engenheiro de ecossistemas” - termo usado para definir espécies que modificam fisicamente o ambiente. No caso do tatu-canastra, a escavação das tocas promove a aeração do solo e cria espaços subterrâneos com temperatura e umidade mais estáveis, formando microambientes propícios à utilização por outros animais.
Publicação internacional
O estudo foi publicado na revista científica internacional Studies on Neotropical Fauna and Environment, especializada em biodiversidade e conservação na América Latina. Os resultados reforçam que essa função ecológica do tatu-canastra não é exclusiva do Cerrado goiano. Pesquisas semelhantes realizadas em outros biomas, como o Pantanal e a Mata Atlântica, também demonstraram que as tocas do tatu-canastra funcionam como abrigo para dezenas de espécies, embora com padrões distintos de uso - no Pantanal, por exemplo, foi registrada uma proporção maior de aves utilizando essas estruturas.
Risco de extinção
O tatu-canastra enfrenta riscos crescentes de desaparecimento, principalmente devido à perda de habitat, à caça e aos atropelamentos em rodovias. Por isso, compreender a função ecológica de suas tocas vai além do interesse científico: é essencial para embasar estratégias de conservação e políticas públicas de proteção da fauna. “O tatu-canastra não beneficia apenas a si mesmo, mas contribui diretamente para a sobrevivência de muitos outros animais. Com isso, estamos também preservando uma rede inteira de interações ecológicas. Por isso, acredito que investir na proteção de áreas naturais, no combate à caça e ao desmatamento e na conscientização da sociedade é indispensável para garantir a manutenção da biodiversidade e a saúde dos ecossistemas”, destaca o professor Wellington Hannibal.
Quem usa as tocas do tatu-canastra
Entre as espécies registradas utilizando as tocas como abrigo, área de descanso ou proteção térmica estão:
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Tatu-canastra e as tocas localizadas na Unidade de Conservação Refúgio de Vida Silvestre Serra da Fortaleza, em Quirinópolis (GO)
(Comunicação Setorial|UEG. Fotos: Wellington Hannibal)