No Dia Internacional da Mulher, o Laboratório Universitário de Memória Audiovisual da Universidade Estadual de Goiás (LUMINAV/UEG) presta homenagem à antropóloga Telma Camargo da Silva, cuja trajetória intelectual e ética se entrelaça, de modo indissociável, à memória do desastre radioativo com o Césio-137 em Goiânia.
Desde os primeiros meses após o acidente, em 1987, Telma assumiu o compromisso de escutar, registrar e compreender as experiências das vítimas, dos profissionais envolvidos na contenção e das instituições mobilizadas em torno do ocorrido. Sua pesquisa etnográfica, realizada ao longo de diferentes períodos (1987–1989; 1996–1999; 2004–2005), constituiu um trabalho rigoroso de observação participante, entrevistas sonoras e audiovisuais, coleta documental e reflexão crítica. Mais do que reunir fontes, Telma construiu um campo de interlocução sensível, reconhecendo nas narrativas das vítimas não apenas dados, mas experiências marcadas por dor, estigma, luta por reconhecimento e reivindicação de direitos.

A doação que o LUMINAV recebe — oficialmente intitulada Desastre Radioativo com o Césio-137 – Goiânia / Coleção Telma Camargo da Silva — é a expressão concreta desse compromisso. O acervo reúne centenas de fitas cassete com entrevistas, registros audiovisuais em VHS, Video8 e DVD, fotografias pesquisadas em arquivos institucionais, transcrições em disquetes, programas de rádio e televisão, além de documentos de campo que contextualizam minuciosamente cada etapa da investigação. Trata-se de um conjunto documental de inestimável valor histórico, antropológico, político e, sobretudo, humano.
Ao contextualizar cuidadosamente suas fontes, indicar financiamentos, instituições envolvidas e percursos metodológicos, Telma nos ensina que preservar é também narrar a história da própria pesquisa. Seu gesto de doação é, portanto, um ato de responsabilidade pública: ele transforma uma trajetória individual em patrimônio coletivo, abrindo caminhos para novas gerações de pesquisadoras e pesquisadores.
Para o LUMINAV, laboratório cuja equipe é formada majoritariamente por mulheres — jovens pesquisadoras comprometidas com a preservação audiovisual e a memória social — receber esta coleção é uma honra e também uma missão. Cuidar desse acervo significa zelar por testemunhos que atravessam o tempo; significa manter viva a memória das vítimas; significa reconhecer o trabalho de uma mulher que fez da escuta um gesto político.
Neste 8 de março, celebramos em Telma Camargo da Silva a força das mulheres na ciência, na universidade pública e na construção da memória social. Celebramos sua coragem intelectual, sua ética no trato com as pessoas afetadas pelo desastre e sua decisão generosa de confiar ao LUMINAV a guarda desse patrimônio.

Que a Coleção Telma Camargo da Silva permaneça como espaço de pesquisa, reflexão e compromisso — e que o cuidado exercido por tantas mulheres no LUMINAV seja também uma forma de continuidade de sua obra: transformar memória em responsabilidade, e responsabilidade em futuro.