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Gwatá completa 15 anos integrando a UEG e os territórios do Cerrado

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Quando foi criado, há 15 anos, o Núcleo de Agroecologia Gwatá recebeu um nome que já indicava o caminho que pretendia seguir. A palavra vem do tupi-guarani e significa “caminhar”, verbo que descreve com precisão a trajetória construída pelo grupo ao longo dos anos.

Vinculado à Universidade Estadual de Goiás (UEG) e cadastrado como grupo de pesquisa no Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), o Gwatá surgiu a partir de um edital nacional que incentivava a criação de núcleos de agroecologia em universidades brasileiras. Com o tempo, tornou-se um coletivo interdisciplinar que atua em diálogo permanente com territórios, comunidades tradicionais e povos indígenas.

Hoje, o núcleo reúne atividades de ensino, pesquisa e extensão pensadas de forma integrada. A proposta é aproximar a universidade das realidades vividas pelas comunidades e construir, junto com elas, caminhos para o desenvolvimento sustentável. Os projetos desenvolvidos abordam temas centrais para o Cerrado e para as populações que vivem nesse bioma, como impactos socioambientais do uso de agrotóxicos, gestão da água, educação do campo e agroecologia como alternativa ao modelo predominante do agronegócio.

Segundo o coordenador do núcleo, prof. Murilo Souza, docente do curso de Geografia e do Programa de Pós-Graduação em Geografia (PPGEO) do Câmpus Cora Coralina da UEG - onde o Gwatá está sediado -, essas questões partem de demandas concretas das comunidades e não de agendas isoladas de grupos de pesquisa.

Nos assentamentos da reforma agrária, por exemplo, o grupo acompanha a realidade de centenas de famílias. Apenas no município de Goiás existem 24 assentamentos rurais, que reúnem cerca de 700 famílias. Ao longo dos anos, o núcleo passou a atuar em diferentes territórios, realizando formações, apoiando iniciativas de produção agroecológica e contribuindo com estudos sobre impactos socioambientais.

Entre os locais acompanhados estão o Pré-assentamento Paulo Gomes, em Itapuranga, além de áreas em Itapirapuã, Santa Helena de Goiás, Palmeiras de Goiás e Itaberaí. O professor Murilo destaca que, nesses territórios, um dos episódios que marcou a trajetória do grupo foi o acompanhamento do Assentamento Pontal do Buriti, em Rio Verde, após um caso de pulverização aérea de agrotóxicos que atingiu uma escola rural - situação que motivou um trabalho mais próximo e contínuo com a comunidade.

Comunidades tradicionais 

O diálogo com comunidades tradicionais também inclui áreas quilombolas em diferentes regiões de Goiás. O Gwatá atua junto à comunidade quilombola do Cedro, em Mineiros, além dos quilombos Kalunga (Cavalcante) e do Moinho, em Alto Paraíso. Muitas dessas comunidades participam da Tenda Multiétnica, espaço de diálogo intercultural realizado durante o Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (Fica), na cidade de Goiás, com organização do Câmpus Cora Coralina da UEG, em parceria com a Seduc-GO e outras instituições.

Na própria cidade de Goiás, o núcleo também dialoga com a comunidade do Alto Santana, onde vivem famílias com forte vínculo com tradições quilombolas e camponesas.

O trabalho do Gwatá se estende ainda a diferentes povos indígenas. Em Goiás, há interlocução com comunidades Iny/Karajá, em Aruanã, além dos povos Avá-Canoeiro e Tapuia. Nos últimos anos, a presença indígena na cidade de Goiás também cresceu. Atualmente, vivem no município mais de 300 indígenas do povo Xavante, muitos envolvidos em atividades acadêmicas e culturais articuladas pelo núcleo.

Essa rede ultrapassa os limites do estado. O grupo mantém diálogo com povos como os Kaingang, no sul do Brasil; os Guarani Kaiowá, no Mato Grosso do Sul; os Kalapalo, no Xingu; e os Rikbaktsa, no norte do Mato Grosso. Atualmente, o núcleo produz um documentário sobre o povo Rikbaktsa, com lançamento previsto para este ano.

Uma das experiências mais consolidadas ocorre junto ao povo Boe Bororo, do município de General Carneiro, em Mato Grosso. Segundo o professor Murilo, nesse território, pesquisadores da UEG desenvolvem atividades de pesquisa e formação que incluem orientação de estudantes indígenas no mestrado, oferta de disciplinas no próprio território indígena e investigações científicas em diálogo com as comunidades.

Esse processo também ampliou a presença indígena na universidade. Hoje, quatro estudantes Bororo participam de programas de pós-graduação vinculados ao grupo, enquanto na graduação também cresceu o número de estudantes Xavante ingressando em cursos da UEG.

Valorização dos saberes tradicionais

Atividade de formação em audiovisual com estudantes do povo Boe Bororo, Mato Grosso, 2025. Foto: Dagmar Talga

Um dos projetos de pesquisa desenvolvidos pelo Gwatá é o Território-Cerrado, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (Fapeg). A iniciativa busca compreender como o conhecimento é produzido em comunidades indígenas, quilombolas e camponesas, colocando em diálogo saberes científicos e conhecimentos tradicionais.

Para isso, os pesquisadores utilizam metodologias como cartografia social, pesquisa sensível e colaborativa. “Muitas vezes, a partir da universidade e da academia, acabamos entendendo, equivocadamente, que o nosso conhecimento científico tem um valor maior do que os conhecimentos produzidos por povos indígenas, por exemplo. E a ideia nossa no projeto é tentar compreender primeiro como o conhecimento desses sujeitos, desses coletivos, são construídos e sistematizados; qual é a importância deles para a sociedade de forma geral, tentando de alguma forma colocar em diálogo o método acadêmico científico e o conhecimento popular construído nesses territórios”, diz o professor Murilo.

“O povo Boe Bororo tem uma forma de organização sistêmica que é extremamente complexa e que muitas vezes a gente tem dificuldade de compreender, mas eles produzem conhecimento sobre a natureza que garantiu a vida deles nos últimos séculos. Com base nesses conhecimentos que produzem na relação com a natureza, com o Cerrado, e que a gente compreende muito pouco. Muitas vezes, achamos bonito, mas não sabemos como esses conhecimentos são produzidos, até porque, na maioria das vezes, são conhecimentos que partem de uma cultura da oralidade. Nossa ideia então é construir isso coletivamente com eles, numa perspectiva cultural e de produção de conhecimento para a vida mesmo”, acrescenta.

Formação e comunicação

As atividades desenvolvidas pelo Gwatá ao longo de 15 anos resultaram em cerca de 15 dissertações de mestrado, aproximadamente 30 bolsistas de iniciação científica e dezenas de estudantes envolvidos em projetos de extensão e pesquisa. “A vinda de estudantes Xavante para cá, por exemplo, envolve o Gwatá e envolve o PPGEO. Veio um estudante fazer o mestrado com a gente e ele trouxe alguns professores intérpretes, e esses professores trouxeram os estudantes. Ao mesmo tempo que a nossa presença nos territórios faz com que esses sujeitos se sintam à vontade para estar também nos espaços nossos acadêmicos”, afirma o professor.

Escola do Cerrado: espaço de formação para graduandos e pós-graduandos

Representantes do Gwatá durante atividades na Escola do Cerrado. Foto: Eduardo Oliveira

A atuação do Gwatá envolve uma ampla rede de parcerias institucionais. Na área da educação, o núcleo colabora com a Secretaria de Estado da Educação de Goiás (Seduc-GO), além de secretarias municipais e programas voltados à educação do campo.

Uma das ações de extensão é o programa Escola do Cerrado. Há mais de dois anos, a equipe atua em parceria com o Centro de Ensino em Período Integral (Cepi) Professor Alcide Jubé, por meio do projeto Educomunicação e Território.

Mestrando em Geografia pelo PPGEO|UEG, Eduardo Alves de Oliveira participa da coordenação, do monitoramento e do desenvolvimento das atividades do projeto. As ações são realizadas com estudantes do 6º ao 9º ano do ensino fundamental, inscritos na eletiva “Planeta sustentável: biomas, recursos naturais e consciência ecológica”.

“O projeto está sendo fundamental para minha formação na perspectiva de uma educação transformadora, que parte da comunidade para o espaço da universidade, me dando consciência e vivência das várias realidades que constroem o projeto. A Escola do Cerrado se transforma em um espaço onde os estudantes são provocados a enxergar a Geografia através de suas realidades e vivências, assim como também os temas trabalhados em cada atividade partem deles também”, conta Eduardo.

Além das atividades no projeto, o mestrando atua junto a povos indígenas por meio do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), como agente pastoral, acompanhando comunidades indígenas em Mato Grosso. No mestrado, sua pesquisa aborda conflitos territoriais em áreas indígenas.

Aluna do 8º período de Geografia do Câmpus Cora Coralina, Sara Foggia integra o núcleo há quase quatro anos e participa da construção de atividades pedagógicas na Escola do Cerrado. Entre as ações desenvolvidas estão produção audiovisual, oficinas com materiais do Cerrado, aulas de campo, cartografia, criação de horta escolar e uso de estação meteorológica. “Como estudante licenciatura, tenho a consciência de que a universidade nos dá os ensinamentos importantíssimos para a profissão, mas é na sala de aula que aprendemos a sermos profissionais de verdade, e esse projeto e o Gwatá me deram essa oportunidade. Nesse projeto entendi o que é ser professora. Tivemos uma flexibilidade e troca de diálogo indispensável; e sinto que é assim que deve ser a relação escola-universidade caminhando juntas”, destaca. 

Redes nacionais e internacionais

Ao longo dos anos, outros projetos importantes foram realizados. Um exemplo é a parceria com o Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera), que entre 2014 e 2017 financiou um projeto de formação de jovens em práticas agroecológicas. O programa possibilitou a formação de estudantes em cursos técnicos de nível médio e pós-médio voltados à agroecologia. O grupo também mantém parcerias com Escolas Família Agrícola, como a Efago (cidade de Goiás), Efaori (Orizona) e Efau (Uirapuru). As instituições de ensino são voltadas principalmente para jovens do meio rural, oferecendo uma formação que articula educação escolar, vida comunitária e produção agrícola. Pesquisadores do núcleo acompanham ainda, há mais de dez anos, quatro escolas do campo no município de Goiás.

Outras parcerias incluem instituições como a Comissão Pastoral da Terra (CPT), com a qual o grupo participa da Escola Diocesana de Agroecologia, processo anual de formação voltado a agricultores familiares. O núcleo também contribuiu para a criação de uma feira da agricultura familiar vinculada à política pública municipal Vale Feira, fortalecendo circuitos locais de comercialização.

Segundo o professor Murilo, a atuação do Gwatá se conecta ainda a redes de pesquisa nacionais e internacionais. O núcleo integra grupos de trabalho da Associação Brasileira de Agroecologia (ABA), participa da rede Unión de Científicos Comprometidos con la Sociedad y la Naturaleza de América Latina (UCCSNAL) e mantém colaboração com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). “Um coletivo da Fiocruz tem trabalhado com a ideia de investigação científica sensível e colaborativa. Então, a gente tenta construir um processo de pesquisa que seja construído coletivamente entre a gente e essas comunidades”, afirma o prof. Murilo. 

Nos últimos anos, uma dimensão que ganhou destaque nas atividades do grupo foi a comunicação. O Gwatá passou a investir em processos de comunicação popular e educomunicação, utilizando o audiovisual como ferramenta de reflexão, formação e diálogo com comunidades. O núcleo produziu documentários e outros materiais cinematográficos sobre experiências de comunidades do Cerrado, conflitos socioambientais e iniciativas de agroecologia.

Um dos filmes produzidos pelo grupo, o longa-metragem “Mada e Bia”, venceu em novembro o Prêmio Margarida de Prata, concedido pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Dirigido por Dagmar Olmo Talga, o filme acompanha a trajetória das religiosas Marie Madeleine Hausser (Mada) e Béatrice Kruch (Bia), que vivem no Brasil desde 1967.

Outras produções já foram exibidas em eventos internacionais, e um dos documentários do grupo deverá ser lançado na França. A produção audiovisual ocorre em parceria com diferentes coletivos e instituições, como a Magnífica Mundi, da Universidade Federal de Goiás, além de pesquisadores de Cuba e Colômbia. Como parte dessa estratégia, o núcleo também estruturou recentemente um estúdio de rádio no Câmpus Cora Coralina, que será utilizado para produção de web rádio, podcasts e videocasts, além de ficar disponível para a comunidade acadêmica.

Ficaeco

Outra iniciativa importante é a participação do Gwatá na organização do Festival Internacional de Cinema de Agroecologia (Ficaeco), que reúne produções audiovisuais sobre agroecologia, territórios e sustentabilidade, com filmes produzidos por povos indígenas, comunidades quilombolas, agricultores familiares e coletivos internacionais.

Mas, apesar dos avanços, o trabalho com comunidades tradicionais ainda enfrente obstáculos. Segundo o prof. Murilo, um deles é a necessidade de ampliar e fortalecer políticas institucionais de permanência estudantil voltadas a estudantes indígenas e quilombolas, garantindo condições para que possam concluir sua formação universitária.

Ainda assim, a presença crescente desses estudantes na universidade e a aproximação entre o conhecimento científico e saberes tradicionais são apontados como alguns dos resultados mais significativos da trajetória do núcleo.

Oficina de Grafismo, 2024 - Foto: Ana Cecília Andrade

Núcleo participa de intercâmbio na Colômabia - Foto: Dagmar Talga

Núcleo realizou travessia educativa que percorreu mais de 1.700 quilômetros entre a Cidade de Goiás (GO) e Petrolina (PE), promovendo estudos sobre a Caatinga e o Cerrado

 Núcleo realiza ações educativas com crianças e trabalhadores do campo

 

(Comunicação Setorial|UEG)

Notícia publicada em 19/03/2026

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