Projetos desenvolvidos por pesquisadoras da Universidade Estadual de Goiás (UEG) têm ampliado o acesso de crianças atendidas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) a tecnologias assistivas e ações de acompanhamento do desenvolvimento infantil. Coordenadas pela professora Cibelle Formiga, docente do curso de Fisioterapia e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Aplicadas a Produtos para Saúde (PPG CAPS), as iniciativas articulam ensino, pesquisa e atendimento à comunidade, em parceria com instituições públicas de saúde.
Os projetos envolvem estudantes, pesquisadoras e egressas da graduação e da pós-graduação da UEG, com atendimento a crianças com deficiência motora e atraso no desenvolvimento, além do suporte e da orientação às famílias acompanhadas pelo SUS.
Uma das iniciativas é o “Mover e brincar: programa de telessaúde para apoiar famílias no acompanhamento e promoção do desenvolvimento de bebês nascidos com risco biológico no primeiro ano de vida”, contemplado na Chamada Pública nº 15/2025 da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (Fapeg), dentro do Programa Pesquisa para o SUS (PPSUS). O projeto recebeu investimento de R$ 131,5 mil. Além dele, a docente lidera uma segunda iniciativa aprovada no PPSUS Inovação, selecionada recentemente em edital do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). O trabalho é desenvolvido em parceria entre a UEG e o Laboratório de Estudos Inventivos em Tecnologias Assistivas (Lab.EITA) da UFG, localizado na Praça Universitária, em Goiânia.
No PPSUS Inovação-CNPq, são desenvolvidas tecnologias assistivas para crianças com deficiência motora atendidas no Hospital das Clínicas (HC) da UFG. No ambulatório do hospital, o projeto acompanha crianças de 0 a 5 anos com atraso no desenvolvimento ou em situação de risco decorrente de complicações no parto ou no pós-parto, com avaliações e acompanhamento realizados por equipe multidisciplinar.
Quando há necessidade de tecnologia assistiva, as famílias são encaminhadas ao Lab.EITA para avaliação. A partir dessa análise, são desenvolvidos equipamentos personalizados, como cadeiras de rodas adaptadas, cadeiras de alimentação, órteses para membros superiores e inferiores, parapódium – utilizados para auxiliar a criança a permanecer em pé – e outras adaptações para alimentação, escrita e atividades escolares, incluindo suportes para talheres, canetas e livros.
Para a confecção desses dispositivos, as equipes utilizam materiais de baixo custo, como MDF, insumos para órteses, revestimentos e materiais de costura e acabamento. O objetivo é desenvolver recursos acessíveis financeiramente, sem comprometer a qualidade, ampliando o acesso de famílias em situação de vulnerabilidade socioeconômica a equipamentos que contribuem para a autonomia, o conforto e o desenvolvimento das crianças.
Em maio, a profa. Cibelle participou, em Brasília, do Seminário Marco Zero do Programa de Pesquisa para o SUS (PPSUS), realizado nos dias 6 e 7. O encontro marcou o início do PPSUS Inovação e reuniu cerca de 200 especialistas de diferentes regiões do país para discutir a implementação das pesquisas aprovadas e aproximar a produção científica das demandas do SUS.
Segundo a coordenadora, o projeto prevê atender entre 80 e 100 crianças vinculadas ao SUS ao longo de dois anos. O investimento aprovado é de quase R$ 383 mil, destinados à aquisição de equipamentos, insumos, custeio das atividades de pesquisa e participação em eventos científicos. O projeto já conta com os recursos destinados às bolsas das pesquisadoras, enquanto as demais verbas aprovadas pelo CNPq seguem em processo de liberação.
Trabalho conjunto
Bolsistas do projeto fazem avaliação de criança no Laboratório de Estudos Inventivos em Tecnologias Assistivas (Lab.EITA), em Goiânia
As avaliações das crianças são realizadas por quatro fisioterapeutas com vínculo à UEG: as egressas Geovana Araújo Costa Ribeiro e Isabela Rodrigues da Mata, além das doutoras Nayara Gomes Oliveira e Ana Luiza Righetto Greco, egressas do PPG CAPS e bolsistas de Desenvolvimento Tecnológico e Industrial (DTI). “No Lab.EITA, criamos recursos de tecnologia assistiva utilizando processos de fabricação inovadores, sempre buscando unir acessibilidade, responsabilidade e cuidado com as pessoas que necessitam desse suporte. Estar inserida nesse ambiente me faz viver experiências únicas e muito especiais, que diariamente fortalecem em mim uma visão mais sensível, empática e inclusiva da fisioterapia. Cada atendimento, cada história e cada conquista dos pacientes mostram o verdadeiro valor de exercer o cuidado com amor e dedicação”, destaca Geovana Ribeiro.
Segundo ela, os recursos oferecidos gratuitamente a crianças e adultos, especialmente a famílias em situação de vulnerabilidade social e financeira, contribuem diretamente para a rotina, a autonomia e o desenvolvimento das pessoas atendidas. “É emocionante perceber como pequenas ações podem transformar vidas de maneira tão significativa. Saber que o meu trabalho contribui para proporcionar mais independência, bem-estar e esperança para essas pessoas torna tudo ainda mais especial e gratificante”, enfatiza.
Isabela da Mata ressalta que a produção das tecnologias assistivas por meio de manufatura avançada, focadas em baixo custo e sustentabilidade, fortalece diariamente uma prática profissional mais humana e democrática. “Esses equipamentos melhoram muito a qualidade de vida e o prognóstico dos pacientes que nos procuram e é muito gratificante ver como o meu trabalho pode mudar de certa forma a vida dessas pessoas”, sublinha.
O projeto é desenvolvido de forma interdisciplinar. O trabalho também envolve estudantes da graduação integrantes da Liga Acadêmica de Pesquisa e Estudos do Desenvolvimento Infantil (Lapedi|UEG), vinculada ao curso de Fisioterapia, que acompanham avaliações e auxiliam na confecção das tecnologias ao lado de estudantes da UFG das áreas de Design, Moda e Arquitetura. Coordenador do Lab.EITA e parceiro da pesquisa, o professor Pedro Henrique Gonçalves, da UFG, é arquiteto formado pela UEG e atua na integração das equipes das duas instituições.
De acordo com a profa. Cibelle Formiga, um dos principais resultados já observados é a redução do tempo de espera para obtenção de equipamentos adaptados. Famílias que aguardavam meses – e, em alguns casos, mais de um ano – por cadeiras de rodas em outras instituições passaram a receber atendimento mais ágil no laboratório. Após a entrega dos equipamentos, os usuários continuam sendo acompanhados por videochamadas durante quatro semanas para avaliação da adaptação, do conforto e da necessidade de ajustes.
Prof. Pedro Gonçalves (UFG), profa. Cibelle Formiga e as fisioterapeutas Nayara Gomes e Ana Luiza Righetto (UEG)
Vídeos educativos
O projeto “Mover e Brincar” contempla a utilização de vídeos educativos com orientações práticas para que pais e responsáveis possam estimular o desenvolvimento das crianças em casa. A iniciativa dará continuidade a pesquisas desenvolvidas no PPG CAPS|UEG e utilizará um ensaio clínico randomizado com mães atendidas pelo Hospital das Clínicas da UFG. Parte das famílias receberá os vídeos educativos acompanhados de monitoramento remoto por videochamadas de WhatsApp, enquanto outro grupo seguirá com as orientações convencionais da equipe do hospital.
Os vídeos abordam estímulos motores e funcionais relacionados às diferentes etapas do desenvolvimento infantil, com orientações sobre sentar, engatinhar, ficar em pé, brincar, utilizar objetos, alimentar-se e posicionar corretamente os bebês. Ao todo, cerca de 50 vídeos já foram produzidos com apoio da Fapeg e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).
A fisioterapeuta Vanessa Cordeiro de Sousa, mestranda do PPG CAPS|UEG e bolsista pela Fapeg/PPSUS, participa diretamente da elaboração dos filmes e materiais educativos. Segundo ela, a participação no projeto tem sido fundamental para sua formação profissional e acadêmica, ao possibilitar a integração entre assistência, pesquisa e educação em saúde, além de ampliar a compreensão sobre o cuidado centrado na família e as necessidades enfrentadas por pacientes e cuidadores no cotidiano.
“Para as famílias assistidas, o impacto é significativo, uma vez que os materiais produzidos contribuem para o acesso a informações confiáveis e de fácil compreensão, reduzindo inseguranças e auxiliando na continuidade do cuidado fora do ambiente hospitalar. Dessa forma, buscamos promover maior qualidade de vida, segurança e independência para as crianças e seus familiares, fortalecendo o vínculo entre a equipe de saúde e a comunidade atendida”, ressalta.
A profa. Cibelle explica que a expectativa é que os materiais sejam futuramente disponibilizados gratuitamente em plataformas públicas, permitindo que famílias e profissionais de saúde utilizem os conteúdos como ferramenta de orientação no SUS.
Além dos impactos sociais, os projetos fortalecem a formação acadêmica dos estudantes da UEG ao aproximar graduação e pós-graduação. A integração favorece o desenvolvimento de habilidades técnicas, científicas e práticas, incluindo a produção de tecnologias assistivas, comunicação científica, elaboração de vídeos, participação em congressos e atuação em pesquisas com impacto direto na comunidade. “Eu acredito que esses projetos fortalecem o papel da Universidade Estadual de Goiás ao articular o conhecimento produzido na instituição com a formação dos nossos profissionais, tanto da graduação quanto da pós-graduação, permitindo que os resultados das pesquisas científicas cheguem à vida cotidiana da população. Tanto o projeto do PPSUS Inovação quanto o outro projeto do PPSUS têm como foco gerar resultados escaláveis. A nossa proposta é que, após a conclusão das pesquisas e a comprovação dos resultados, esses programas possam ser incorporados ao Sistema Único de Saúde (SUS)”, afirma Cibelle.
A coordenadora destaca ainda que o curso de Fisioterapia da UEG foi o primeiro do estado de Goiás e segue como referência na formação profissional e na produção científica. No PPSUS Inovação, o projeto coordenado por Cibelle foi o único da UEG aprovado na chamada nacional do CNPq.
Campanha de arrecadação
Além das atividades de pesquisa e desenvolvimento de equipamentos, o Lab.EITA também promove campanhas de arrecadação de tampinhas plásticas para contribuir com a fabricação de cadeiras de rodas recicladas.
A iniciativa é realizada em parceria com a Liga Acadêmica de Pesquisa e Estudos do Desenvolvimento Infantil (Lapedi|UEG) e integra ações de sustentabilidade e inclusão social desenvolvidas pelo laboratório.
Informações sobre a campanha, pontos de coleta e outras ações podem ser acompanhadas pelo perfil do Lab.EITA no Instagram.
(Comunicação Setorial|UEG)