
A trajetória de Clara Idioriê é marcada pelo encontro entre ancestralidade, técnica e cinema. Indígena dos povos Xavante e Carajá, ela aprendeu com o avô a grande importância de registrar os ritos e o cotidiano de sua cultura. Após uma formação inicial em Jornalismo, encontrou no curso de Cinema e Audiovisual da UEG o espaço para aprofundar esse desejo, em um ambiente acolhedor e diverso. Durante a graduação, Clara se descobriu na maquinária, uma área técnica pouco visibilizada e historicamente masculina, na qual já atua profissionalmente antes mesmo de se formar. Sua experiência revela um percurso construído com dedicação aprendizado e afirmação de identidades apagadas. Em nossa conversa para o Cinemas, Histórias e Laranjeiras, Clara articula cinema, trabalho e cultura como formas de resistência, pertencimento e futuro.
CHL: Quem é a Clara? Como você chegou ao curso de Cinema e Audiovisual da UEG?
Clara Idioriê: Eu sou de Mato Grosso. Na verdade, sou indígena dos povos Xavante e Carajá. Vivi até os meus 15 ou 16 anos em Mato Grosso, com a família do meu pai, então tenho mais domínio e conhecimento em relação ao povo Xavante. Foi dentro do povo Xavante que me envolvi com algo visual, com a busca de registrar os ritos e o cotidiano do povo, principalmente da Aldeia Liderança. Meu avô acreditava que era importante ter esses registros, porque os povos não indígenas não acreditam naquilo que é apenas falado. Então, era necessário um registro tanto físico quanto documental. Uma certeza que eu sempre tive é que queria fazer cinema; eu sempre gostei muito dos bastidores de como os filmes eram feitos. Quando eu assistia, acompanhar os bastidores sempre me instigou bastante.
CHL: E como você foi parar no curso de Audiovisual da UEG? Como foi essa chegada a Goiás?
Clara Idioriê: Quando cheguei aqui, as inscrições para o curso de cinema que eu procurava especificamente já tinham sido encerradas. Minha mãe é daqui; a família dela é de Goiânia, na verdade ela é de Crixás. Ela é Carajá de Crixás, da última aldeia que existia ali. Acabei entrando no curso de Jornalismo, no qual me formei. Mas essa vontade de fazer cinema sempre esteve presente. Quando eu estava terminando o Jornalismo, vi que tinham aberto o vestibular da faculdade de cinema da UEG e pensei que talvez fosse uma boa oportunidade. Foi quando realmente prestei, passei e ingressei. Sempre foi um sonho. Além disso, eu queria que fosse perto, porque Goiânia sempre foi meio que uma segunda casa para mim; eu sempre estive por aqui e me sentia mais à vontade. Eu até cheguei a pensar em audiovisual na UFMT, mas Goiânia sempre foi, digamos assim, a minha casa.
CHL: E o curso de Jornalismo foi escolhido por quê?
Clara Idioriê: Porque era mais próximo da área de comunicação e me possibilitava, talvez, uma pós-graduação em cinema. Sempre foi algo ligado ao cinema.
CHL: Você saiu da aldeia com que idade?
Clara Idioriê: Eu saí com cerca de 15 anos. Primeiro fui para Água Boa, que é uma cidadezinha próxima da aldeia. Depois, terminei o ensino médio, o terceiro ano, em Cuiabá. Só então vim para cá.
CHL: E como foi a sua impressão quando você chegou à UEG?
Clara Idioriê: Acho que o que eu mais gostei, assim que cheguei, foi o quanto o ambiente era acolhedor com todo mundo. A minha turma foi uma das mais diversificadas, tanto em idade quanto em trajetórias e experiências. Eu conseguia conversar tanto com pessoas que estavam tendo a primeira experiência na faculdade quanto com outras que já tinham passado por isso, inclusive eu mesma. Foi uma turma muito interessante nesse sentido: todo mundo estava disposto a ouvir. A gente estava saindo de uma pandemia, então havia uma carência grande de cuidado e de afeto com o outro. Eu entrei numa época muito perfeita, porque não foi aquilo que a gente costuma ouvir, de uma faculdade extremamente apressada, em que ninguém olha para ninguém. Foi totalmente o contrário. Foi muito bom entrar naquela turma, tanto pelo convívio com os colegas quanto com os professores. Até os professores comentavam que a gente era uma turma diferenciada, muito carinhosa entre si, com os próprios docentes, e muito elétrica.
CHL: E parece que você mantém vínculo com esses colegas de classe até hoje, não é?
Clara Idioriê: Sim, inclusive vínculos de trabalho. Hoje em dia, alguns seguiram especificamente na área de cinema, outros foram para áreas correlatas, como mídias sociais ou outras áreas da comunicação. Mas a maioria, o que me deixa muito feliz, está realmente no cinema ou no audiovisual.
CHL: Você falou que foi bem acolhida e que gostou da universidade, mas o curso em si era o que você esperava?
Clara Idioriê: Era muito do que eu esperava, principalmente na base teórica. Eu aprendi bastante. Mas o que achei mais interessante foi que me encontrei em uma área que não aparece tanto no curso — e não só no curso da UEG, de modo geral — que é justamente o foco da minha pesquisa de TCC: a maquinária. Foi isso que me possibilitou conhecer esse lado do cinema que é pouco citado em praticamente todos os lugares. É uma área extremamente técnica e, ao mesmo tempo, você só conhece de fato quando está inserida no meio. Não há muitos livros, nem tantas pessoas reconhecidas como autoridades completas nesse campo, a não ser que você faça parte dele.
CHL: Tem dois aspectos em relação a essa escolha de caminho que você seguiu que eu queria entender. Geralmente, as pessoas entram no curso de cinema e, ao longo do tempo, vão buscando suas áreas de atuação — produção, direção, entre outras. Você foi para uma área que, além de ser pouco falada e estudada durante o curso, parece estar inserida em um ambiente historicamente machista. Pelo que pesquisei, a maioria absoluta são homens. E é interessante pensar que você entrou nesse espaço e está feliz nele.
Clara Idioriê: Sim, é uma área historicamente masculina, vista como masculina. Mas, durante as minhas pesquisas, percebo que uma mulher ou outra esteve presente e foi fundamental para o avanço de alguns maquinários que utilizamos até hoje. O problema é que essas mulheres foram historicamente apagadas, algo que a gente vê constantemente no próprio curso, em diversas áreas.
Eu costumo dizer que o simples fato de ser uma mulher atuando na maquinária já funciona como um filtro. As pessoas sempre me perguntam se eu já sofri algo mais pesado, mas não, porque isso acaba filtrando muito com quem eu trabalho. Quem não está disposto a lidar com isso simplesmente não trabalha comigo, porque eu realmente corto. Tenho tido experiências muito enriquecedoras com pessoas e homens muito abertos a aprender, a entender como mudar essa realidade. A principal questão é você se colocar à disposição para aprender.
CHL: Você ainda não se formou e já está inserida no mercado de trabalho, participando e atuando em várias produções. Como foi essa transição? Como um aluno que começa no curso de cinema ou audiovisual entra no mercado de trabalho?
Clara Idioriê: É preciso ser realmente sincero, principalmente em relação à área em que você está entrando. Por mais que você tenha conhecimento teórico, no set as coisas são muito diferentes, inclusive em termos hierárquicos e na forma como o set funciona. Então, é chegar até a pessoa que você tem como mentor e dizer: “Olha, eu sei até aqui, mas estou disposta a aprender”. Muitas vezes, no início, você vai de forma gratuita, trabalhando para adquirir experiência. A partir disso, você começa a construir um histórico, as pessoas passam a te conhecer, e isso é fundamental.
CHL: O mercado busca vocês na universidade? Como é que vocês estão inseridas no mercado de trabalho?
Clara Idioriê: Depende muito da área. Algumas permitem que o mercado venha até a universidade, por meio de estágios ou processos seletivos. Mas há outras áreas em que, se você não for atrás, as pessoas não vão te conhecer, porque é um meio relativamente fechado.
CHL: Como é a sua rotina profissional como maquinária?
Clara Idioriê: Em uma equipe mínima, a gente costuma trabalhar com três funções. O maquinista-chefe acompanha o filme desde a pré-produção: ele visita as locações, avalia o que é possível fazer, entende o conceito do filme e define quais equipamentos vão ser utilizados.
O primeiro maquinista trabalha muito próximo do chefe, ajudando a coordenar o restante da equipe, que geralmente inclui o segundo maquinista — e, dependendo da dimensão do filme e do orçamento, pode haver mais pessoas.
O segundo maquinista faz esse trajeto constante entre o caminhão, onde normalmente ficam os equipamentos, e o set. A gente já chega com uma ideia do que vai ser usado, quais equipamentos serão necessários, e o primeiro passo é confirmar se aquilo realmente funciona. Se houver mudanças, a equipe se adapta. A gente trabalha como um organismo.
Somos praticamente os primeiros a chegar ao set, junto com a produção, e os últimos a sair. Montamos tudo antes, fazemos ajustes durante as gravações ou remontamos os equipamentos conforme a cena e a quantidade de cenas. Alguns filmes mantêm o mesmo setup; outros exigem muitas mudanças. No final, a gente desmonta tudo.
CHL: Você acha que o mercado goiano melhorou, especialmente depois do que vem acontecendo no mercado nacional, com essa maior projeção do cinema brasileiro após a mudança de governo e a retomada dos incentivos?
Clara Idioriê: Com certeza melhorou, principalmente no sentido de organização. Acho que, como profissionais, a gente tem buscado cada vez mais se profissionalizar e se valorizar, tanto enquanto categoria quanto em termos de salário e qualidade de vida no trabalho. Existe uma preocupação maior em construir um ambiente minimamente saudável, inclusive fisicamente, porque a nossa realidade ainda é de jornadas longas — normalmente 12 horas por dia, seis ou sete dias por semana. Isso é diferente do eixo São Paulo, por exemplo, onde já se começa a implementar jornadas de oito horas.
O que eu tenho visto no mercado é essa organização no sentido de afirmar que o cinema feito aqui é profissional e tem qualidade. Não há necessidade de trazer pessoas de fora, porque também estamos aqui trabalhando e entregando um resultado tão bom quanto o de outros lugares. Existe uma valorização maior do profissional local, enquanto classe.
CHL: Então você acredita que não é mais necessário sair, como muitos fizeram no passado, indo para São Paulo por ser um mercado já estruturado?
Clara Idioriê: Ainda existe esse movimento, mas hoje há uma consciência maior de tentar ficar e fortalecer o mercado goiano. Antigamente, era muito comum pensar: “Vou ficar aqui um tempo e depois ir embora”. Hoje, a gente já consegue enxergar potencial em permanecer aqui também. Existe essa mudança de mentalidade.
CHL: Falando um pouco do cinema nacional, depois do prêmio recente da Fernanda Torres e dessa visibilidade internacional, a gente percebe uma valorização maior do audiovisual brasileiro pelos próprios brasileiros. Não falo nem do reconhecimento externo, mas interno. Sempre pareceu existir uma barreira — não diria exatamente um preconceito — para que a gente enxergasse a cultura brasileira com o mesmo valor que enxerga o que vem de fora. É um caminho sem volta ou você acredita que governos totalitários, que não valorizam a cultura, podem apagar essa trajetória que está sendo construída até aqui?
Clara Idioriê: Eu acho que é possível, sim, que outros tipos de governo, com outras visões, consigam apagar parte desse caminho, porque a memória do ser humano é muito curta. A gente é muito influenciável. Tanto que, para muitas pessoas, foi necessária uma validação estrangeira para entender que o cinema nacional é importante, que o audiovisual brasileiro tem valor.
Historicamente, o audiovisual brasileiro sempre foi muito admirado lá fora, principalmente pelas questões técnicas. A gente consegue, por exemplo, manter uma novela por meses e meses, algo que, para muitas pessoas de fora, é inimaginável e extremamente cansativo.
Outra questão é o nosso olhar, enquanto população, muito moldado pelo cinema hollywoodiano. A gente espera que tudo siga aquela linguagem. O interessante de acessar espaços como a faculdade, mostras e festivais é entender que existem várias linguagens. Não existe certo ou errado no resultado estético, mas diferentes estilos. Tecnicamente, há procedimentos corretos, mas o resultado em si é diverso, plural. Cada realizador tem uma visão única de mundo. Acho que o espectador também está aprendendo isso, mas, assim como se aprende, também é fácil desaprender.
CHL: O que você acha da integração entre a aldeia e a cidade?
Clara Idioriê: Eu acho que é uma linha muito tênue. Ao mesmo tempo em que traz questões muito interessantes, que fortalecem a nossa visão de mundo e quem nós somos, também traz coisas que não são tão legais.
Falando especificamente do povo Xavante, que é de onde eu venho e que teve um contato relativamente recente, já houve mudanças drásticas na cultura e na forma de ver o mundo. Por exemplo, tradicionalmente é um povo poligâmico, mas hoje já existem questões de ciúme e posse. Eu observo essas pequenas mudanças, que não estão apenas no comportamento, mas na maneira de enxergar o mundo, e isso me preocupa bastante.
Ao mesmo tempo, sempre há pessoas que utilizam essas ferramentas de integração para fortalecer a nossa cultura e as nossas questões. Eu tento fortalecer esse lado, valorizar e não esquecer. Muitas pessoas acabam se iludindo com a imagem que a novela transmite, de riqueza e fartura. Em alguns intercâmbios que a minha aldeia fez, principalmente com outros povos, foi importante mostrar que aqui também existe a realidade da favela, de pessoas que lutam todos os dias para ter o que comer. E, ao mesmo tempo, lembrar que somos extremamente ricos, porque podemos plantar o que vamos comer, caçar, organizar o nosso tempo. É entender o valor das coisas, não apenas em termos de dinheiro, mas de valor mesmo, daquilo que a gente tem.
CHL: Clara, você está aqui, inserida no mercado, trabalhando, se formando, mas não se afastou da aldeia. Inclusive, recentemente, você viveu uma experiência muito significativa. Você pretende manter esse vínculo?
Clara Idioriê: Com certeza. A minha relação com a aldeia sempre foi mantida, mas, nos últimos anos, eu acabei me afastando um pouco, por várias questões internas e também porque eu via mudanças sobre as quais, muitas vezes, não podia fazer nada. Esse afastamento aconteceu.
Mas foi voltando e estando mais presente que eu consegui perceber o que posso fortalecer melhor e agir de forma mais sábia e mais importante. Eu sempre busco voltar, porque é onde eu cresci, é de onde vem a forma como eu sou e estou no mundo. Foi algo que meu avô sempre me ensinou: eu preciso saber estar no mundo sendo quem eu quiser ser, desde que esteja feliz.
Sempre que sinto que estou me tornando muito individualista ou consumista, a aldeia vem para me lembrar de onde eu sou e do que é mais importante para mim. Recentemente, participei de um rito de passagem, tanto o meu — no sentido de uma jovem se tornando mais adulta — quanto o dos meus afilhados, que estavam saindo da infância e da adolescência para se tornarem jovens adultos.
A gente acredita que esses ciclos são muito importantes: para o adulto realmente ser adulto, para a criança viver plenamente a infância e para o jovem assumir suas responsabilidades. Na infância, existe uma liberdade total de circular pela aldeia, de fazer o que quiser. A partir de um certo momento, você começa a entender o peso das responsabilidades e do conhecimento tradicional. Esses ritos existem para nos lembrar disso, para fortalecer tanto o corpo quanto o espírito, e para reforçar a importância da cultura e de tudo o que ela carrega.
CHL: O que você diria para aqueles jovens que têm o sonho de entrar no curso de cinema e audiovisual?
Clara Idioriê: Coloquem asas nos seus sonhos. Sempre há espaço. Isso é o que eu acho mais bonito no cinema: tem espaço para todo mundo. Há espaço para quem quer ser mais técnico, para quem é extremamente criativo. Nenhum filme é mais importante do que o outro, porque, na prática, todo mundo está ali por um único objetivo. Sempre existe um lugar para cada pessoa, e isso é o que eu mais gosto no cinema.
CHL: Que bom. Vou deixar, então, alguns minutos para você falar o que está no seu coração, deixar uma mensagem para a gente.
Clara Idioriê: Eu gostaria de trazer mais maquinistas, principalmente mulheres, para a área técnica. Tenho visto que, com a minha entrada, algumas meninas têm se sentido mais seguras e curiosas em relação a esse campo. Entendam que, se você quer entrar, vá, seja feliz. E, se entrar e perceber que não é aquilo que você queria, mude. Não tenha medo de mudar. O que importa é ser feliz, tanto no pessoal quanto no profissional.

SOBRE O PROJETO "CINEMAS, HISTÓRIAS E LARANJEIRAS"
Em 2026, o curso de Bacharelado em Cinema e Audiovisual da Universidade Estadual de Goiás comemora 20 anos de vida. Jovem, mas já repleto de histórias, ele representa um marco significativo no contexto audiovisual do Estado, tanto em sua dimensão de pesquisa acadêmica quanto, e principalmente, na formação de profissionais de excelência que atuam no cenário local, nacional e internacional. A partir do curso, centenas de pessoas têm se dedicado a produzir cinema com gosto, cheiro e cor de Goiás, difundindo nossa cultura e sotaque através da mágica cinematográfica.
Para celebrar as conquistas e comemorar as duas décadas do curso, o CriaLab|UEG está realizando o projeto Cinema, Histórias e Laranjeiras. Até 2026, ele se propõe a colher depoimentos de egressos e egressas de destaque e de pessoas que ajudaram a construir o curso, e apresentá-los na forma de entrevistas que serão publicadas nos sites institucionais da UEG, e, ao final, reunidas em um e-book. Além disso, em 2026, o Projeto irá realizar o plantio de um pomar de laranjeiras na Unidade Universitária Goiânia-Laranjeiras com uma árvore dedicada a cada turma.
Sobre o CriaLab|UEG

O CriaLab|UEG é o Laboratório de Pesquisas Criativas e Inovação em Audiovisual da Universidade Estadual de Goiás, dedicado à formação, pesquisa e experimentação. Reúne docentes, pesquisadores, estudantes e profissionais no desenvolvimento de projetos audiovisuais. Com estúdios e equipes especializadas, produz conteúdos, realiza ações formativas e impulsiona inovação no audiovisual.
Em 2026, o CriaLab|UEG completa 10 anos. Em uma década, ele se consolidou como referência em pesquisa, formação e inovação no audiovisual. A data marca uma trajetória histórica no desenvolvimento de projetos de pesquisa e extensão, produção de conteúdos e ações formativas que impactam a comunidade acadêmica e cultural.
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