
O cinema é um trabalho coletivo. Assim Thomas Toledo sintetiza sua reflexão sobre a arte narrativa que decidiu abraçar como sua. Desde cedo, ele construiu uma relação intensa com a escrita e a invenção de histórias, passando por uma primeira formação em Relações Internacionais até encontrar no audiovisual seu campo de realização. Ingressou no curso de Cinema e Audiovisual da UEG em meio à pandemia, buscando base teórica, prática e articulação com o mercado local. Ao longo da graduação, consolidou seu interesse em roteiro, direção e assistência de direção, dirigindo curtas de ficção e documentário. Seu filme O lado que a cidade não vê (2024), realizado com recursos da Lei Paulo Gustavo, marca a afirmação de um cinema autoral ligado à experiência trans e às realidades sociais de Goiânia. É com ele que conversamos neste novo capítulo do projeto Cinemas, Histórias e Laranjeiras.
CHL: Conta um pouco da sua história até chegar à UEG e à sua profissão.
Thomas Toledo: Eu sou de Goiânia, nasci e fui criado aqui. É engraçado porque, hoje, olhando para trás, percebo que não lembro de muitas coisas da infância. Com o tempo, e até com terapia, a gente vai entendendo muita coisa. Mas uma lembrança que sempre aparece é que eu brincava muito de contar histórias, geralmente sozinho ou com algum vizinho.
Era algo muito ligado ao teatro, eu acho. A gente inventava situações, e eu estava sempre dando ideias do que fazer. Essa coisa de contar histórias sempre esteve presente. Além disso, eu sempre gostei muito de ler. Com mais ou menos 15 anos, eu escrevi um livro.
Na cabeça de um adolescente que mora em Goiânia, aquilo era o auge. Eu pensava: “é isso, só dá pra viver disso, não tem outra opção”. Depois, veio o ensino médio. Meus pais são professores, então fazer uma faculdade era algo dado como certo.
Com 16 anos, eu fiz vestibular para Relações Internacionais. Na verdade, a motivação era viajar; eu imaginava algo ligado à diplomacia. Entrei no curso com a cabeça de um adolescente de 16, 17 anos e me formei em 2017. Durante o TCC, eu percebi claramente que não era aquilo que eu queria.
Comecei a pesquisar outras possibilidades e me lembrei da época em que tinha escrito o livro. Coincidentemente, ou não, minha mãe sempre gravou muito com câmera quando a gente era criança. Hoje ela já é falecida, mas ela registrava tudo. Além disso, ela também era uma grande contadora de histórias. Livro, escrita, narrativa: tudo isso sempre esteve muito presente por influência dela.
Nesse período, eu pensei: “eu não quero ser escritor de livros, mas gosto de escrever; como posso juntar isso a outra coisa?”. Isso foi por volta de julho de 2017. Pesquisando, descobri que existia um curso técnico de cinema em Goiânia, o único na época, no Espaço Kino, do Isaac Brum.
Em 2018, eu fiz esse curso, que durava cinco meses, e ali tive acesso a muita coisa. Antes disso, porém, eu já tinha um amigo, o Bruno Amorim, que se formou na UEG. A gente se encontrava em festas, em rolês, e conversava. Eu dizia que gostava de gravar, e ele falava que sabia editar. Então resolvemos fazer um filme.
A gente fez três pequenos projetos. Duas pessoas fazendo todas as funções, sem nem saber direito que aquelas eram funções. Eu escrevia o roteiro como se fosse um livro, de forma bem narrativa, e a gente gravava. Só depois, no curso técnico, fui entender que cada área tem uma função específica.
Foi mágico, extremamente mágico. Em 2018, eu entrei de vez no audiovisual. Comprei minha primeira câmera, inicialmente para fotografia, como hobby, e comecei a conhecer pessoas. Conheci a Milena, que também faz a faculdade na UEG, e a gente passou a produzir coisas juntos, filmar shows.
A partir daí, eu entrei mesmo no mercado audiovisual e pensei: “eu vou fazer a faculdade”. Em 2019, descobri que existia o curso de Cinema e Audiovisual da UEG. Até então, para mim, não havia essa possibilidade em Goiânia ou em Goiás; eu achava que cinema só existia em São Paulo.
Pesquisei a grade do curso, vi que tinha muitas disciplinas de direção — Direção I, Direção II — e pensei: “é isso, vou tentar”. Fiz o vestibular, passei, e o resultado saiu em 2020. Foi assim que cheguei à UEG. O detalhe é que, no dia seguinte à minha matrícula, estourou a pandemia. Aí veio outro grande desafio.
CHL: E como foi a sua primeira impressão da universidade quando você entra, de fato, no curso?
Thomas Toledo: Eu entrei com a intenção de ter contato com a teoria, que era algo que eu nunca tinha tido antes. E, por ser um pouco mais velho do que na minha primeira graduação, eu já entrei pensando que precisava fazer contatos. Não adianta querer construir uma carreira fora, em São Paulo, por exemplo, se eu não tenho uma base aqui em Goiás. Cinema é trabalho em equipe, são várias pessoas envolvidas, e eu precisava de ajuda.
Quando eu cheguei, confesso que fiquei com um pouco de medo. A experiência foi muito diferente porque aconteceu durante a pandemia. Era tudo online, todo mundo aparecia só em pequenas janelas na tela. Então foi um processo de adaptação em dois níveis: uma nova turma, uma nova faculdade e, ao mesmo tempo, esse formato remoto.
Por isso, minha experiência acaba sendo um pouco mais particular. Não foi aquela chegada tradicional em sala de aula, presencial. Demorou um pouco para a turma se conectar, porque a gente não se via de verdade. Muitas pessoas não ligavam a câmera, eu mesmo não ligava. Esse processo de adaptação levou um tempo.
Mesmo assim, eu estava muito animado. Diferente da minha primeira faculdade, que eu fiz muito por pressão dos meus pais, dessa vez eu realmente queria estar ali. Eu prestava muita atenção nas aulas. Professores como a Jô Levi, o José Eduardo Ribeiro e a Geórgia Cynara me cativaram muito. Eu assistia às aulas quase sem piscar. O curso de Cinema e Audiovisual é muito amplo, com uma gama enorme de possibilidades de atuação.
CHL: E como você foi se encontrando dentro desse leque de possibilidades?
Thomas Toledo: Antes mesmo de começar a faculdade, naquele curso técnico que eu mencionei, a gente precisava produzir um curta ao final. Meu papel foi o de assistente de direção. Não foi uma experiência muito boa, apesar de eu ter amado exercer a função. Quando entrei na UEG, eu tinha certeza do que queria: roteiro e direção eram o meu foco.
Eu sou um pouco difícil de mudar de ideia. Quando coloco algo na cabeça, fico insistindo naquilo. Ao longo da faculdade, me chamou atenção a quantidade de disciplinas voltadas para som. Isso me surpreendeu bastante, porque eu não imaginava que existissem tanta complexidade e tantas possibilidades dentro dessa área.
Muita gente entra no curso pensando em direção e acaba mudando ao longo do caminho. No meu caso, quando cheguei à disciplina de Direção II, com o Rafael de Almeida, foi, para mim, a melhor parte da faculdade. Acho que foi no quarto período. Demorou um pouco, inclusive, e eu pensei: “só agora estou vendo aquilo que eu queria desde o começo”.
Essa disciplina abriu muito meu horizonte sobre o que realmente faz um diretor. Antes, eu achava que era simplesmente pegar um projeto e impor a minha visão. Mas não é isso. Existem documentos, camadas de construção, um trabalho de condução do processo inteiro.
Eu lembro de uma fala do Isaac, no curso técnico, em que ele dizia que o diretor é quem ajuda a puxar o piano. Quem toca o piano são os atores e as atrizes; o diretor mostra o caminho, puxa junto com a equipe, não deixa ninguém fazer isso sozinho. Essa frase resume muito bem a forma como eu vejo o cinema: como um trabalho coletivo.
Eu também experimentei um pouco de direção de fotografia, até porque, hoje, para pagar as contas, eu trabalho como cinegrafista, videomaker. Então quis aproveitar esse conhecimento para crescer profissionalmente. Mas, dentro do cinema, não é a área que mais me interessa. Nem direção de fotografia, nem assistência de fotografia são o meu foco principal.
Acabei ficando mais voltado para direção e assistência de direção. Tive algumas experiências em filmes, fotografia e estilos diferentes, mas sempre com esse foco. Não cheguei a explorar áreas como som, maquinária ou produção. Eu tinha uma meta clara e fui até o fim tentando cumpri-la.

CHL: Você se recorda de algum projeto, de alguma disciplina ou de alguma experiência que tenha te marcado durante a sua formação no curso?
Thomas Toledo: Tem vários. Alguns engraçados, outros ruins. Foram muitos altos e baixos, que dependem de vários fatores. Acho que algo que marcou bastante foi o fato de a minha turma não ser muito unida, muito por conta do ensino remoto. A gente acabou criando pequenos grupos, e isso influenciou bastante o jeito como as produções aconteceram.
Teve produção de filme que não deu certo. Mas, falando de algo que marcou positivamente, tem um projeto cômico que eu sempre lembro. Foi uma dublagem que eu fiz junto com dois amigos, a Lorena Meneghi e o Matheus Aragão, para uma disciplina da professora Thaís Oliveira. A gente dublou uma cena de The Office. Eu nunca imaginei que fosse dublar algo na minha vida, e foi uma experiência incrível.
Também tiveram os projetos das disciplinas de direção, em que a gente propôs a realização de curtas-metragens. Acho que, na minha época, foram quatro curtas ao longo da graduação. Eu pude dirigir três deles: dois de ficção e um documentário. Isso me remeteu muito ao período anterior à faculdade, quando eu queria testar coisas diferentes. Ali foi o espaço para experimentar, errar e fazer. Isso foi muito importante para a minha formação.
CHL: Fala um pouquinho sobre a experiência de produzir O lado que a cidade não vê, documentário lançado em 2024.
Thomas Toledo: Eu me formei em 2023 e, depois disso, comecei a trabalhar em sets de amigos, mas ainda não em projetos autorais. Eu precisava de dinheiro. Na faculdade, a gente fazia as produções de forma mais guerrilha; depois, a gente entra no mundo real.
Quando saiu o edital da Lei Paulo Gustavo, eu confesso que não pretendia me inscrever. Eu pensava que não sabia escrever projeto. Mas o Juliano Gomes, que também é egresso, me incentivou. Ele disse: “vamos fazer, você tem ideias, vamos colocar em prática”. A única categoria disponível no edital era documentário.
Como eu nunca tinha feito um documentário profissionalmente, apenas na faculdade, eu quis escrever algo que fosse da minha realidade. Como homem trans, eu queria falar da minha comunidade. Comecei a pensar em amigos trans e em como escolher uma abordagem, porque são muitas pessoas e muitas realidades.
Eu tinha uma posição muito clara por causa de um filme que fiz antes da faculdade, sobre um menino trans, no qual eu coloquei todos os medos de um homem trans na sociedade. Foi um filme muito pesado. Depois disso, eu prometi para mim mesmo que não faria mais esse tipo de abordagem. Eu queria falar sobre a pauta trans, mas de outra forma.
Então pensei que aquela era a oportunidade, inclusive com recurso financeiro, de fazer isso. Decidi falar sobre corpos trans no mercado de trabalho, especialmente em Goiânia, que é uma sociedade bastante conservadora. Reuni dois homens trans e uma mulher trans, que conhecemos ao longo do processo, e acompanhamos a jornada deles: seus sonhos, a luta diária.
A gente tenta não pesar o clima, mas é impossível ignorar certos aspectos. Existe o medo de apanhar na rua, de sofrer transfobia, as questões familiares, os relacionamentos. O filme trata do cotidiano dessas pessoas.
Eu sempre tento inserir algum elemento de ficção nos meus trabalhos, sair um pouco da caixinha. Nesse documentário, por exemplo, há uma cena gravada dentro de um teatro, com dança, protagonizada por dois dançarinos profissionais.
CHL: Como você vê hoje o mercado audiovisual, já fora da universidade? Como você se insere nele?
Thomas Toledo: Infelizmente, eu acho que ainda não dá para viver exclusivamente de cinema em Goiás. Sei que existem pessoas que vivem disso, mas, na visão que eu tenho hoje — que já mudou bastante, porque antes eu achava que era impossível —, o cinema acaba sendo uma parte da renda.
A gente tem muita deficiência em termos de editais e continuidade de políticas públicas. Em outros estados, como São Paulo, existem editais o ano inteiro, várias oportunidades, e a possibilidade de concorrer a mais de um edital com o mesmo CPF ou CNPJ. Aqui, não. Tivemos a Lei Paulo Gustavo, que acabou, e a Aldir Blanc, que teve valores baixos e poucas vagas.
Então é difícil dizer “vou viver de cinema”. Seria um sonho poder trabalhar só com meus roteiros, participar de filmes de amigos. Mas o que vejo é que dá para usar a formação em cinema em outras áreas.
Hoje eu trabalho muito com marketing. Sou responsável por criar, filmar e editar conteúdos. E coloco nisso a visão de enquadramento, a construção de paisagem sonora — algo que aprendi muito no curso de cinema, entendendo que som não é só uma música de fundo. Isso faz diferença.
Eu gostaria de estar fazendo mais cinema, mas essas pequenas diferenças mostram uma evolução da nossa área. Este ano, vi muitas produções sendo feitas em Goiás, por vários profissionais, muitos deles egressos da UEG. Achei incrível ver pessoas daqui, que a gente encontra na rua, produzindo filmes no estado.
Teve produção na Chapada, em Quirinópolis, em vários lugares. Eu queria ter participado de mais, mas ainda estou num processo de consolidação, tentando entrar mais como assistente de direção. Agora já tenho alguns projetos encaminhados.
Desde que entrei na UEG, em 2020, até agora, vi uma evolução muito grande e muito rápida. Vejo coletivos se formando, produtoras surgindo. Isso fortalece o audiovisual local. Hoje, eu penso diferente de antes. Eu tinha muita vontade de ir para São Paulo fazer cinema, e hoje penso em ir por um tempo, sim, mas com a intenção de fazer cinema aqui. Não é preciso sair definitivamente.
Tem profissionais excelentes lá, mas também temos aqui. A galera daqui faz coisas muito boas. Acho que a tendência é crescer ainda mais.
CHL: O que você diria para quem está começando agora no curso?
Thomas Toledo: Eu diria para tentar tudo. Experimentar todas as matérias e todas as áreas. É algo que eu mesmo não fiz tanto quanto poderia, mas acho muito importante.
Para quem quer seguir direção, por exemplo, não adianta não conhecer as outras áreas. Não precisa ser especialista em tudo, mas entender um pouco, praticar um pouco, faz muita diferença.
E uma dica muito prática: se você pretende fazer um filme como TCC, comece a juntar dinheiro desde o início do curso. Vá guardando aos poucos. Isso faz muita diferença no final, porque você consegue trabalhar com mais calma e mais estrutura. Dá para fazer sem dinheiro? Dá. A gente sempre dá um jeito. Mas facilita muito. Se eu pudesse ouvir algo quando entrei no curso, seria isso. Eu fiz meu TCC com cerca de 400 reais, na luta mesmo.
SOBRE O PROJETO "CINEMAS, HISTÓRIAS E LARANJEIRAS"
Em 2026, o curso de Bacharelado em Cinema e Audiovisual da Universidade Estadual de Goiás comemora 20 anos de vida. Jovem, mas já repleto de histórias, ele representa um marco significativo no contexto audiovisual do Estado, tanto em sua dimensão de pesquisa acadêmica quanto, e principalmente, na formação de profissionais de excelência que atuam no cenário local, nacional e internacional. A partir do curso, centenas de pessoas têm se dedicado a produzir cinema com gosto, cheiro e cor de Goiás, difundindo nossa cultura e sotaque através da mágica cinematográfica.
Para celebrar as conquistas e comemorar as duas décadas do curso, o CriaLab|UEG está realizando o projeto Cinema, Histórias e Laranjeiras. Até 2026, ele se propõe a colher depoimentos de egressos e egressas de destaque e de pessoas que ajudaram a construir o curso, e apresentá-los na forma de entrevistas que serão publicadas nos sites institucionais da UEG, e, ao final, reunidas em um e-book. Além disso, em 2026, o Projeto irá realizar o plantio de um pomar de laranjeiras na Unidade Universitária Goiânia-Laranjeiras com uma árvore dedicada a cada turma.
Sobre o CriaLab|UEG

O CriaLab|UEG é o Laboratório de Pesquisas Criativas e Inovação em Audiovisual da Universidade Estadual de Goiás, dedicado à formação, pesquisa e experimentação. Reúne docentes, pesquisadores, estudantes e profissionais no desenvolvimento de projetos audiovisuais. Com estúdios e equipes especializadas, produz conteúdos, realiza ações formativas e impulsiona inovação no audiovisual.
Em 2026, o CriaLab|UEG completa 10 anos. Em uma década, ele se consolidou como referência em pesquisa, formação e inovação no audiovisual. A data marca uma trajetória histórica no desenvolvimento de projetos de pesquisa e extensão, produção de conteúdos e ações formativas que impactam a comunidade acadêmica e cultural.
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