
Em 2026, o curso de Bacharelado em Cinema e Audiovisual da Universidade Estadual de Goiás comemora 20 anos de vida. Jovem, mas já repleto de histórias, ele representa um marco significativo no contexto audiovisual do Estado, tanto em sua dimensão de pesquisa acadêmica quanto, e principalmente, na formação de profissionais de excelência que atuam no cenário local, nacional e internacional. A partir do curso, centenas de pessoas têm se dedicado a produzir cinema com gosto, cheiro e cor de Goiás, difundindo nossa cultura e sotaque através da mágica cinematográfica.
Para celebrar as conquistas e comemorar as duas décadas do curso, o CriaLab|UEG está realizando o projeto Cinema, Histórias e Laranjeiras. Ele se propõe a colher depoimentos de egressos e egressas de destaque e de pessoas que ajudaram a construir o curso, e apresentá-los na forma de entrevistas que serão publicadas nos sites institucionais da UEG. A décima edição do projeto é uma conversa muito instigante com a diretora e diretora de fotografia Michely Ascari.
ENTREVISTA COM MICHELY ASCARI
A trajetória de Michely Ascari revela uma profissional formada no encontro entre oportunidade, dinamismo e persistência. Vinda de São Paulo, ela encontrou na UEG não apenas acesso ao ensino superior de qualidade, mas uma experiência de reflexão sobre diferentes mercados, contextos e realidades de trabalho. Passando por estágios, funções técnicas diversas e experiências em festivais, curtas universitários e produções de grande porte, ela construiu uma carreira diversa e que transcende fronteiras. A formação internacional na ECAM, em Madrid, ampliou seu domínio técnico e a levou ao primeiro trabalho em uma série internacional. Entre seus trabalhos, participou como assistente de câmera em filmes e séries como "SANTO" (Netflix), "Marcelo, Marmelo, Martelo" (Paramount+), a novela "Beleza Fatal"(HBOMax), "Tremembé" (Prime Vídeo) e "Sintonia - 5ª Temporada" (Netflix), entre muitos outros projetos ficcionais e publicitários. Hoje, Michely transita entre Goiás, São Paulo e produções globais, refletindo sobre diferentes modos de produção, condições de trabalho e desigualdades de gênero no set. Sua trajetória evidencia a importância da formação pública, da abertura ao aprendizado contínuo e da construção coletiva no cinema. É com ela que conversamos nesta entrevista do projeto Cinemas, Histórias e Laranjeiras.
CHL: Qual foi a importância da UEG na construção da sua identidade profissional? E também na forma como você enxerga o cinema hoje?
Michely: Vou começar pela importância da UEG. A minha entrada na universidade teve um grande impacto na minha entrada no mercado. Eu sempre quis trabalhar com audiovisual. Sou de São Paulo, não de Goiânia, e aqui o mercado era difícil: fechado, inacessível. Eu também não tinha dinheiro para entrar nos cursos universitários, e havia muita concorrência nos cursos gratuitos. A UEG me possibilitou esse acesso de uma maneira mais tranquila. Não era exatamente fácil, mas era muito menos concorrido. Quando entrei no curso, consegui ter muitas oportunidades de trabalho.
CHL: Já durante o curso?
Michely: Sim. Desde o meu primeiro ano comecei a fazer estágio — em festivais, em outras áreas — e a participar de várias atividades. Senti que a entrada no mercado foi muito gradual e natural. Eu simplesmente fui entrando: o que aparecia, eu queria. Hoje eu escolho mais, mas naquele momento eu abraçava tudo.
Isso me permitiu conhecer muitas pessoas que já estavam no mercado e ter acesso a oportunidades reais: estágios que depois viraram trabalhos. Comecei como aprendiz e, nos anos seguintes, já voltava com alguma função. De fato, o curso me possibilitou contato com o mercado desde sempre.
Chegou até um ponto em que tive que fazer uma escolha difícil: me formar ou parar de estudar para trabalhar, porque eu sentia que estava perdendo oportunidades que estavam surgindo e queria abraçar todas.
CHL: Mas você se formou.
Michely: Sim, me formei. Precisei puxar o freio de mão e pensar: “Peraí, estou tão perto.” Era o último ano, com menos carga horária, e decidi priorizar o diploma. Foi a melhor decisão, porque depois que você entra no mercado e se joga, é muito difícil voltar para concluir a graduação.
CHL: Você estava em São Paulo e veio para cá fazer universidade. Estar em Goiânia, uma cidade completamente diferente de São Paulo, de alguma forma, impactou o seu olhar sobre o cinema?
Michely: Acho que sim. É inegável pensar que aqui se falava de um cinema mais inacessível. Quando vim para Goiânia — faz quase dez anos — o audiovisual em Goiás estava em um momento de crescimento, mas ainda era muito pequeno. A quantidade de produtoras, festivais e eventos era reduzida; tudo ainda estava começando, surgindo como um movimento.
Ao mesmo tempo, isso foi muito bom, porque o fato de ser um mercado menor me possibilitou estar presente em todo ele.
Michely: Alô, Mamãe foi feito em uma matéria da UEG — se não me engano, Realização de Ficção — em que a proposta era fazer um projeto em que a sala inteira participaria. Geralmente produzíamos vários curtas, em grupo ou individualmente, mas esse seria um filme único, com todo mundo envolvido. Era um desafio, porque eram pessoas muito diferentes: algumas mais próximas de mim, outras mais distantes.
O bonito desse filme é que todo mundo comprou a ideia. Todos disseram: “Vamos fazer. Vamos tentar fazer algo legal, de verdade.” Pegamos um rascunho de uma ideia da Amanda, que na época já fazia roteiro e até hoje continua desenvolvendo isso, e nos jogamos muito para fazer esse filme. Ele ficou muito sensível, e eu tenho muito orgulho dele até hoje.
Ele teve um impacto que eu realmente não esperava. Achávamos que seria apenas um trabalho de fim de curso: entregar, inscrever na Mostra de Cinema e Audiovisual (MAU) e pronto. Para mim era isso — inscrever porque tínhamos um filme. Mas lá ganhamos um apoio de distribuição com o prêmio da MAU, e isso foi a grande virada. Não sabíamos muito como distribuir ou pensar essa distribuição. Ter o apoio dos meninos da Estratos, que na época estava distribuindo, foi essencial.
O filme foi muito bem aceito em vários festivais. Rodou nacionalmente, inclusive em mostras não universitárias. Era um filme feito com R$ 300, uma Canon e um sonho — e deu muito certo. É muito bonito.
Michely: Foi um grande desafio. A UEG teve um papel importante nisso, porque o curso sempre nos mostrou que podíamos acessar coisas. Havia muito incentivo para nos inscrevermos em editais, mesmo os menores. Eu fui engatinhando nesse caminho: edital de curta, edital para pequenos projetos… Até que surgiu um edital de bolsa de formação. Pensei: “Vou me inscrever”, mas nunca achei que seria contemplada. E foi um baita prêmio: ganhei dinheiro para fazer um mestrado fora.
Durante o mestrado consegui um estágio em uma locadora de câmera, e saí de lá com boas relações.
Michely: Foi em Madrid, sim. Cursei um mestrado em direção de fotografia na Escuela de Cinematografía y del Audiovisual de la Comunidad de Madrid (ECAM), uma escola grande e muito conceituada. Eles me encaminharam para o estágio, fiz entrevista e consegui a vaga. No final do estágio eu não queria que acabasse — todo mundo gostou muito de mim, e eu deles. Um dos responsáveis me disse: “Vai ter um filme aqui, um projeto que tem muito a ver com você. Quero muito te colocar nisso. Vou fazer dar certo.”
E ele conseguiu uma vaga para mim na série Santo, que seria uma produção espanhola e brasileira — talvez por isso ele achasse que tinha tudo a ver eu estar ali. Eu ocupei uma função de cobrir lacunas: era estagiária que preenchia a carga horária do videoassistente e do segundo assistente de câmera. Lá, apesar de rodarem 12 horas por dia como no Brasil, a carga de trabalho é de 40 horas semanais; todo dia alguém da equipe precisava folgar. Eu entrava para ocupar esse lugar. Era um “estágio rebuscado”: tinha nome de estágio, mas eu realmente ocupava funções. Eu nunca tinha estado em um projeto daquele tamanho.
Michely: Exatamente. Eu estava todo dia com uma câmera diferente ou com um chefe diferente dentro da equipe. Isso foi muito legal porque tive contato com muitos jeitos de fazer, muitos foquistas, muitos métodos. Eu estava muito aberta, porque era um universo completamente novo.
Quando busquei a bolsa para ir à Espanha, meu desejo era me aperfeiçoar tecnicamente. Eu sentia que uma das minhas defasagens em Goiânia era o pouco contato com equipamentos de alta gama: algumas câmeras, acessórios… Quando aparecia algo assim, era porque alguém vinha filmar publicidade em Goiânia, trazia o equipamento e eu tinha contato. Mas eu queria mais. Santo me deu isso. Foi como se dissesse: “Você quer? Então tome. Vá atrás.” Eu realmente me joguei. E aprendi muito. Não tenho o que falar.
CHL: Você tem uma formação que passa por algumas linguagens, do design de luz à direção de fotografia, ao cinema. Essa experiência na ECAM transformou a sua forma de pensar a imagem e o set?
Michely: Sim. Eu sempre gostei muito da parte criativa. Antes de entrar para o audiovisual, eu já estudava iluminação, porque eu sabia que gostava da direção de fotografia. Sempre foquei muito em aperfeiçoar meu criativo. A ECAM me deu muito referencial teórico e prático para pensar esse criativo, mas também mostrou que, enquanto profissional — diretora de fotografia ou qualquer função dentro do departamento de câmera — não adianta ter só o criativo. A gente precisa dominar as ferramentas técnicas para entender como vai chegar lá com o que tem.
Comecei a entrar em lugares técnicos onde nunca tinha entrado, conhecimentos que eu não tinha, e tive a possibilidade de fazer testes: filmar com materiais diferentes, fazer comparativos e observar. Hoje penso que são coisas que podemos fazer até com o celular, entendendo os limites dos equipamentos. Mas eu nem sabia como fazer esses testes, o que observar, como olhar para aquilo ou como usar aquilo depois. Esse conhecimento mudou meu repertório cultural.
CHL: Pelo que você contou, você caminhou muito, foi para o “chão de fábrica”, fez várias coisas, e isso compõe a profissional que você é hoje. É importante ter esse olhar aberto para tudo?
Michely: Sim. Eu ainda estou no chão de fábrica. Em Goiás, com os parceiros que fiz — muitos da UEG — eu também tenho espaço criativo para fazer direção de fotografia, porque confiam no meu trabalho. Mas, no mercado de São Paulo, eu sou técnica. Exerço uma função extremamente técnica, de segunda assistente. Preciso passar pela escadinha se um dia quiser operar uma câmera ou fotografar esses projetos maiores.
A UEG me fez tirar um pouco o foco rígido com que cheguei: “é isso, eu quero isso”. Outras oportunidades apareciam e eu pensava: “deixa eu ver”. Financeiramente eu também precisava, então muitas vezes pegava um estágio que não tinha muito a ver comigo, mas que me deu uma visão global da produção e do trabalho dos outros.
Hoje, se estou em um set com 700 pessoas e preciso falar com o coordenador de logística ou com o diretor de produção, eu entendo o trabalho deles, as dificuldades, porque vi isso lá atrás. Talvez me faltasse essa experiência se eu caísse em sets tão grandes sem ter feito esse trabalho menor, de pré-produção, que é essencial. Não existe bom filme sem uma pré bem feita.

CHL: Michelle, existe diferença entre produzir em Goiás, em São Paulo ou em Madrid? Você já passou por grandes plataformas — Disney, Star, Netflix, HBO. A diferença está só na oportunidade ou, quando ligamos a câmera, o set é o mesmo? São Paulo está à frente em maquinário, profissionais?
Michely: É diferente. Não acho que seja estar “à frente” ou não, mas são modos de produção diferentes. São Paulo exige um nível de entrega e eficiência, às vezes com menos infraestrutura do que seria ideal, mas com muita pressão e cobrança. É muito diferente de como produzimos em Goiânia.
Sinto que Goiânia ainda tem muito para caminhar. Ainda filmo aí e adoro, sobretudo com pessoas que eu gosto e em quem acredito. Eu brincava que filmava em São Paulo para poder filmar em Goiás.
Mas ainda temos muito a avançar em organização de pré, leis trabalhistas… Eu sinto essa diferença. Estou com 31 anos e quero mais estabilidade. O audiovisual já é instável por si só. Quero ter dois dias de descanso na semana, não trabalhar seis para um; quero sets de 12 horas, porque não dá para filmar 13, 14, 15. Muitas produções aí não respeitavam isso. Depois de mudar para São Paulo, fiquei quase “sindicalista”.
Quando volto, as pessoas estranham, mas digo: “isso não é sobre São Paulo, é sobre educar o mercado, lutar por condições melhores”. Se todo mundo estiver descansado, bem remunerado e com condições adequadas, os projetos serão melhores. Sinto que ainda há sucateamento. Na Espanha isso também era muito forte, embora fosse muito mais organizado. Lá tínhamos tempo para as coisas. Em São Paulo é: “você não tem X tempo; faz meio”. Não é funcional.
CHL: A direção de fotografia ainda é um ambiente machista, ou masculino?
Michely: Sim, é masculino, embora estejamos avançando. A presença de diretores de fotografia homens ainda é predominante. Poucas mulheres ocupam os mesmos lugares e níveis de projeto. Há muitas mulheres fotografando, inclusive em plataformas, mas não de forma igualitária.
Enquanto técnica, vejo mais equipes compostas por mulheres. No “Santo”, tanto na Espanha quanto em São Paulo, eu fui a única mulher na equipe de câmera — éramos só eu e a videoassistente. Ainda são cargos muito pequenos, mas vamos chegar lá. Nossa geração está furando bolhas, e com o tempo ocuparemos esses lugares.
CHL: Queria que você deixasse um conselho para os alunos que querem seguir a direção de fotografia. Como chegar a algum lugar no mercado?
Michely: Acho que duas coisas são essenciais: ter humildade e ter cara de pau. Precisamos ter menos vergonha de pedir trabalho, pedir oportunidades, mandar mensagem para quem admiramos, insistir, pedir estágio. Cada um sabe de sua situação financeira, mas às vezes é um curta de quatro dias em que dá para não ganhar no início, só para ter a oportunidade de entender se é aquilo mesmo, como se portar no set. Assim, quando uma boa oportunidade surgir, você não chega tão cru.
A humildade é essencial. Todo mundo quer ocupar lugares de chefia, mas precisamos passar pelos processos, fazer um pouco de tudo dentro da equipe de câmera, dialogar com todas as áreas, entender o trabalho dos outros e os limites do nosso. É por aí.
CHL: Para terminar: você ainda tem um sonho? Você disse que ainda está no chão de fábrica, como técnica. O que ainda sonha realizar como diretora, diretora de fotografia, educadora?
Michely: Eu gostaria de ter mais espaços para fazer meus projetos autorais. Gostaria de fazer mais direção de fotografia, em Goiás, em São Paulo, onde for. Entendo que isso é tempo e consistência, mas estou mirando e vendo até onde chego.
Sobre o curso de Cinema e Audiovisual da UEG
No Brasil, os cursos de Cinema e Audiovisual surgiram na primeira década do século XXI, recebendo a herança das extintas graduações em Rádio e TV. Isso significou um desenvolvimento da área em direção às formas mais recentes de comunicação midiática. A nomenclatura dos cursos que nasceram nas últimas duas décadas é diversa, variando segundo as universidades que os oferecem: Imagem e Som, Audiovisual, Midialogia, Cinema e Audiovisual etc. Todavia, o eixo comum da formação nestes cursos é facilmente reconhecido. Trata-se de lidar com as práticas e problemas que o aprofundamento de uma sociedade cada vez mais midiática nos apresenta. Nesse contexto, o aluno de Cinema e Audiovisual da UEG encontra um espaço para qualificar a sua relação com as imagens e sons que circulam entre nós, tornando-se, ao mesmo tempo, criadores habilitados para uma compreensão crítica da sua própria produção audiovisual."
Sobre o CriaLab|UEG

O CriaLab|UEG é o Laboratório de Pesquisas Criativas e Inovação em Audiovisual da Universidade Estadual de Goiás, dedicado à formação, pesquisa e experimentação. Reúne docentes, pesquisadores, estudantes e profissionais no desenvolvimento de projetos audiovisuais. Com estúdios e equipes especializadas, produz conteúdos, realiza ações formativas e impulsiona inovação no audiovisual.
Em 2026, o CriaLab|UEG completa 10 anos. Em uma década, ele se consolidou como referência em pesquisa, formação e inovação no audiovisual. A data marca uma trajetória histórica no desenvolvimento de projetos de pesquisa e extensão, produção de conteúdos e ações formativas que impactam a comunidade acadêmica e cultural.
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