Depois de dois anos de trabalho conjunto entre universidade e comunidade, o "Condefé tem cagaita e gabiroba no Cerrado" encerrou, no último sábado, 6, a primeira etapa do projeto, durante um encontro marcado pela celebração dos resultados alcançados e pela entrega da coleção de três livretos produzidos a partir de oficinas, capacitações e encontros com as famílias dos assentamentos rurais Presente de Deus e Itajá, em Goianésia (GO), no Vale do São Patrício. Além das publicações e dos resultados científicos, a iniciativa deixa importantes contribuições para a valorização dos frutos nativos do Cerrado, dos saberes locais e dos vínculos de amizade construídos entre pesquisadores e moradores.
O evento reuniu assentados, lideranças comunitárias, docentes e estudantes da Universidade Estadual de Goiás (UEG). Durante o encontro, foi realizada uma oficina de leitura do livro infantil "As Aventuras de Gabi e Eugênia no Vale do São Patrício", obra criada para aproximar as crianças e suas famílias das frutíferas nativas do Cerrado. O nome Eugênia faz referência ao nome científico da cagaita, Eugenia dysenterica DC., enquanto Gabi remete à gabiroba, compondo uma narrativa lúdica que destaca a importância dessas espécies para a sociobiodiversidade local.
Outro momento marcante foi a apresentação de painéis fotográficos que retrataram as 11 expedições realizadas pelo projeto, permitindo aos participantes revisitar experiências, compartilhar memórias e refletir sobre os resultados alcançados. Além da publicação infantil, foram entregues à comunidade os livros Cagaita e gabiroba: do reconhecimento em campo ao uso sustentável e Entre campos & florestas: o Cerrado e os saberes locais nos assentamentos rurais em Goianésia, Goiás, todos publicados pela Editora UEG.
As atividades desenvolvidas pelo projeto têm contribuído para promover práticas de extrativismo sustentável na região do Vale do São Patrício, criando oportunidades de geração de renda para as famílias envolvidas. "O Condefé veio trazer para nossa realidade o projeto da cagaita e da gabiroba, que foi muito útil durante esses dois anos de aprendizado, de convivência e companheirismo. Nós pretendemos alavancar esse projeto, produzir cagaita aqui na nossa região, fazer dela uma renda e vender na feira", relatou a moradora Edna Aragão.
"Desde o início eu estava aqui com o pessoal; participei de todas as oficinas. E posso levar muitas coisas para a minha vida, como plantar a cagaita. A gabiroba, eu nunca vi o fruto. Mas agora eu peguei a muda e já posso plantar e produzir", afirmou o estudante Davi Andrade, filho da assentada rural Diure Batista, da associação de moradores do assentamento Presente de Deus. Ele também destacou o quanto apreciou os livros produzidos. "Eu gostei do livro porque abordou a história da minha vizinha, a dona Erezite, que é muito gente boa e importante para a sociedade."
A homenageada, Erezite Fernandes Santos, é uma das pioneiras da comunidade e foi retratada na história como a avó de Gabi, representando a força, a coragem e os conhecimentos tradicionais transmitidos entre gerações. Natural de Itapuranga, Erezite emocionou-se com a reverência. "Amo esse lugar. Sou muito satisfeita de morar na beira do campo. Estou muito feliz de pensar e ver o que aconteceu; que eu fui homenageada por esse livro. Que todo mundo do projeto fique sabendo: eles moram no meu coração sem pedir licença", exclamou.
Memória e identidade
Atuante no projeto, a professora Josana de Castro Peixoto, do Programa de Pós-Graduação em Territórios e Expressões Culturais no Cerrado (PPG Teccer|UEG), destacou que falar do Cerrado é abordar memórias, identidades e processos de ressignificação cultural. Ela ressalta que o projeto Condefé criou espaços de reflexão sobre as trajetórias de vida das famílias assentadas, contribuindo para que reconheçam a importância de valorizar o bioma e sua relação com o território. “Valorizando o Cerrado, através de elementos como a cultura e as questões ambientais, faz com que essa comunidade tradicional se fortaleça cada dia mais e pertença ao seu território”.
O "Condefé" é coordenado pela professora Joelma Abadia Marciano de Paula, docente do curso de Farmácia e dos programas de pós-graduação em Recursos Naturais do Cerrado (Renac|UEG) e Ciências Aplicadas a Produtos para Saúde (PPG CAPS|UEG). O projeto é executado por uma equipe interdisciplinar de pesquisadores da UEG e conta com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (Fapeg) e da Fundação Grupo O Boticário.
Ao conduzir as atividades de sábado, Joelma enfatizou que, ao longo do projeto, foram construídos laços afetivos de amizade e aprendizado mútuo. Destacou ainda que, embora a primeira fase tenha sido finalizada, as ações terão continuidade. "Vamos acompanhar a compercialização desses frutos em suas épocas de coleta, crescimento das mudas de cagaita e gabiroba distribuídas entre as famílias e ampliar as ações de divulgação científica com esses três livretos", sublinhou. Os materiais produzidos serão levados a escolas e outras comunidades, ampliando o alcance do projeto.
Ações
O "Condefé" desenvolveu ações de reconhecimento, coleta sustentável e aproveitamento da cagaita e da gabiroba, integrando moradores e pesquisadores em expedições de campo, oficinas, rodas de conversa e capacitações. As atividades abordaram formas de processamento e conservação dos frutos, apresentando alternativas para agregar valor à produção e gerar renda para as famílias. "Para nós, do assentamento Presente de Deus, foi muito grandioso. Nas nossas oficinas pudemos agregar valor ao cerrado que nós temos aqui", acrescentou a presidente da Associação de Moradores do assentamento, Ana Rita Vieira.
O projeto também proporcionou oportunidades de formação acadêmica para estudantes da pós-graduação, contribuindo para a conclusão de dois doutorados e para a realização de outras quatro pesquisas: dois doutorados e dois pós-doutorados atualmente em curso.
Um delas é desenvolvida pelo pós-doutorando Fernando Gomes Barbosa (Renac|UEG). Ele relatou que sua ligação com a área do projeto "Condefé" começou em 2016, durante o mestrado, quando pesquisou fragmentos de Cerrado na região. No doutorado, passou a estudar a cagaita e, no âmbito do projeto, investigou o potencial antimicrobiano de extratos obtidos de seus subprodutos para o controle da mastite bovina. Os resultados obtidos possibilitaram a continuidade da pesquisa no pós-doutorado. Atualmente, ele se dedica ao desenvolvimento da formulação do bioproduto, buscando viabilizar sua aplicação prática no campo, além de ampliar parcerias com outras universidades. Para Fernando, o projeto impulsiona as pesquisas. "Então, vir aqui hoje fazer o fechamento desse projeto, na verdade, não é um fechamento, é só divulgar para eles o que o projeto já alcançou e o que ainda é capaz de alcançar nos próximos anos", frisou.
Sobre os livros
O livro As aventuras de Gabi e Eugênia no Vale Encantado de São Patrício é uma obra voltada ao público infantojuvenil, criada para promover a conscientização sobre o Cerrado e seus frutos de uma maneira lúdica. Para facilitar a identificação das crianças com a história, a narrativa inclui personagens inspirados em membros da própria comunidade local.
O livro Cagaita e Gabiroba: do campo ao uso sustentável é um guia técnico que abrange desde a identificação botânica das espécies até os ciclos de floração e o momento ideal para a colheita. A obra também detalha formas de conservação para fins comerciais, processos para a fabricação de produtos como sucos e geleias, e traz dados científicos sobre o potencial antioxidante e antimicrobiano dos frutos.
O livro Entre campos e florestas: o Cerrado e os saberes locais nos assentamentos rurais em Goianésia, Goiás atua como um registro histórico que documenta relatos, vivências e os conhecimentos tradicionais das famílias assentadas. A publicação busca preservar a história da comunidade e fomentar a valorização da sociobiodiversidade do Cerrado e do vínculo das pessoas com a terra.
"Quando dei fé"
O nome do projeto faz referência à expressão popular "Condefé", uma forma abreviada de "Quando dei fé", utilizada em Goiás para expressar surpresa diante de algo que surge inesperadamente. Segundo os idealizadores do projeto, o termo traduz a experiência de quem, ao caminhar pelo Cerrado, de repente se depara com frutos nativos como a cagaita e a gabiroba. A expressão também remete ao caráter sazonal desses frutos, que aparecem em abundância por um curto período e podem desaparecer rapidamente, surpreendendo quem retorna em busca de uma nova colheita.






(Comunicação Setorial|UEG)