Minha Pesquisa | Vamos conhecer o trabalho do biólogo Francisco Calaça aqui na UEG

 

Por Francisco Calaça

Meu nome é Francisco Calaça, formado em Ciências Biológicas, pela Universidade Estadual de Goiás, Câmpus Anápolis de Ciências Exatas e Tecnológicas Henrique Santillo (UEG/CCET). Na graduação, produzi meu trabalho de conclusão de curso sobre um grupo de fungos que encontramos crescendo sobre o cocô de várias espécies de animais, sob orientação da Profa. Dra. Solange Xavier dos Santos, no Laboratório de Micologia Básica, Aplicada e Divulgação Científica (FungiLab). Bom, e antes que alguém me julgue por esse “trabalho sujo”, posso me defender!
Ninguém saberá mais da importância do seu trabalho do que você mesmo. As vezes as pessoas se assustam ao saberem que estudo a comunidade de fungos que crescem sobre o cocô e que isso é algo que eu amo demais. Sim, fungos de cocô (cientificamente, temos um termo específico para nos referirmos a eles: fungos coprófilos, que é uma palavra em latim e significa amigo das fezes) têm uma importância muito grande para o equilíbrio dos ecossistemas. Para começar, imagine um mundo onde não existisse as comunidades de organismos decompositores: viveríamos (e isso é apenas um modo de dizer, pois sequer existiríamos) em uma pilha de excrementos, cadáveres e restos de tudo mais que você possa pensar. Esses fungos fazem uma coisa maravilhosa: decompõem o cocô e o transforma em energia, ciclando-a e devolvendo à Natureza, em forma de moléculas simples, toda a energia que os animais não conseguiram aproveitar durante sua digestão. E ainda limpam o mundo de toda a sujeira que os animais deixam para trás. Depois, esses nutrientes podem ser usados pelas plantas, para produzir folhas e frutos, que os animais vão comer e repetir o ciclo. Então, estudar essas comunidades é extremamente importante, pois com isso conhecemos a biodiversidade que habita essas pequenas “ilhas de cocô”, desvendamos os mistérios do seu ciclo de vida (Fig. 1), podemos reconstruir o passado da fauna que existiu no Planeta, avaliar o enorme potencial destes fungos em processos biotecnológicos e, claro, mostrar para todos que a diversidade da vida é incrivelmente fabulosa.

Figura 1 - Ciclo de vida resumido de um fungo coprófilo. (1) Fungos e seus esporos se encontram na vegetação. (2) Ao se alimentar, os animais ingerem esses esporos, que são pequenos e, para vê-los, precisamos de um microscópio. (3) No trato digestivo do animal, ocorre a quebra da dormência dos esporos.  (4) Ao serem eliminados juntos com as fezes, os esporos germinam e completam o desenvolvimento do fungo produzindo novos esporos, (5) que são dispersados para longe das fezes, reiniciando o ciclo.

Meu trabalho da graduação rendeu muita coisa interessante! Publicamos os resultados em vários artigos científicos, sendo estes os primeiros estudos abrangentes sobre fungos coprófilos no Cerrado! No entanto, os artigos científicos são complicados demais para as pessoas que não são cientistas lerem e entenderem o que fazemos enfiados num laboratório. A Profa. Solange sempre nos estimulou a escrever de forma que todos pudessem ter acesso ao conhecimento. Isso é muito importante, pois somente com o conhecimento é que poderemos combater a disseminação de notícias falsas, pseudociência e mitos, que não são nada bom para a sociedade. Assim, com o apoio da Universidade Estadual de Goiás, através do Edital 001/2013/Editora da UEG e da Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de Goiás (FAPEG), que tem nos ajudado com financiamento para a pesquisa, publicamos o meu TCC em formato de livro: Fungos Coprófilos – a diversidade oculta nos excrementos (Calaça, F.J.S. & Xavier-Santos, S. – São Leopoldo: Oikos; Anápolis: Editora UEG, 2017, 166 p.), em linguagem mais acessível, para que mais pessoas pudessem conhecer esses maravilhosos organismos.

Depois da graduação, cursei o mestrado em Ciências Ambientais, na Universidade de Brasília, com a orientação da Profa. Dra. Mercedes Bustamante. No Laboratório de Ecologia de Ecossistemas, desenvolvi uma dissertação que buscou entender como a seca e a chuva (que chamamos de sazonalidade) e dos tipos de solo em três formações vegetais do Cerrado influenciam as espécies de um grupo de fungos tão interessante quanto os fungos coprófilos: os fungos micorrízicos arbusculares. Esse nome complicado se refere aos fungos minúsculos que formam um verdadeiro “casamento” com as raízes das plantas. Assim os fungos ajudam a planta a adquirir água e nutrientes enquanto a planta lhes dá abrigo e um pouquinho da comida que elas fazem através da fotossíntese. Sem esses fungos, não teríamos plantas como conhecemos! Bom, deu para você perceber que eu gosto muito de estudar esses fungos diferentes e poderosos, não é? Mas mesmo trabalhando com os fungos micorrízicos, eu ainda queria desenvolver pesquisas mais aprofundadas sobre os fungos do cocô.

Assim, fiz a seleção para o doutorado, ofertado pelo Programa de Pós-graduação em Recursos Naturais do Cerrado (RENAC), sediado na UEG/CCET, com a proposta de projeto para dar continuidade ao trabalho iniciado em 2010, com os fungos coprófilos. Atualmente, sou doutorando no RENAC, e trabalho no projeto de pesquisa intitulado “Caracterização ecológica, funcional e biotecnológica de ascomicetos (Fungi: Ascomycota) em fezes de herbívoros no Brasil Central”, que recebe financiamento da FAPEG, por meio de bolsa de doutorado (Chamada Pública 3/2018). O projeto tem como principal objetivo estudar os vários aspectos da história de vida desses fungos coprófilos. Como eu disse anteriormente, a principal contribuição desses fungos na natureza é decompor o cocô e distribuir o nutriente que permaneceu ali para as plantas. Mas além disso, é possível que esses fungos possam ser usados para vários outros objetivos, como a produção de medicamentos, como os antibióticos, bem como compostos que podem vir a ajudar a tratar água poluída com rejeitos humanos (esgoto). São muitas as possibilidades!

Para isso, estamos coletando amostras de cocô de animais como vacas, cavalos, cabras, ovelhas e outros em diversas cidades da região Centro-Oeste do Brasil. Usamos estas amostras para observar o crescimento dos fungos ao longo do tempo. Isso só é possível porque incubamos as fezes em um aparato chamado câmara úmida, que nada mais é que uma placa de Petri, forrada com papel filtro, onde colocamos o pedaço de cocô e depois cobrimos com um béquer. Esse pedacinho de cocô é molhado periodicamente com água e então observamos os fungos que vão nascer. Em geral, esses fungos são pequenos, quase do tamanho de um ponto final (Fig. 2). Então, contamos com a ajuda de um microscópio estereoscópico (que nada mais é do que uma lupa elétrica bem potente) para poder observar e fotografar os fungos que encontramos. Além disso, vamos realizar diversos experimentos estranhos com esses fungos e as amostras de cocô, para (tentarmos) entender o que leva um fungo a crescer no cocô, qual a importância que a chuva e a seca representam para o crescimento desses fungos na natureza, se eles preferem cocô de vacas ou cavalos... Você deve estar se perguntando o porquê de sabermos isso. Pois bem, primeiro por que com isso, vamos conhecer ainda mais a biodiversidade de fungos do Cerrado, que é um bioma que está desaparecendo, por conta das nossas ações de desmatamento e usos inconscientes. Precisamos conhecer quais espécies ocorrem em um lugar para depois criarmos leis que vão proteger essas espécies e o ambiente onde ocorrem. Segundo:  por que não sabemos quase nada sobre fungos coprófilos no Brasil. Precisamos aprender muita coisa sobre esses fungos, principalmente sobre a vida deles na natureza selvagem. O estado de Goiás, graças ao trabalho que temos desenvolvido na UEG, tem sido pioneiro em vários aspectos do estudo desses fungos no Brasil Central e isso é muito bom! Terceiro: esses fungos podem ser úteis para nós, como já mencionei, na produção de materiais que possam ser utilizados para produzir remédios, por exemplo.  Por fim, mas não menos importante, conhecer os fungos coprófilos que ocorrem no Cerrado, servirá como mais um motivo para preservarmos esse bioma, que é único no mundo.

Figura 2 - Exemplo da diversidade de fungos coprófilos encontrada em diferentes localidades do Brasil Central, estudadas nesse trabalho. A. Fungo em formato de garrafa, Podospora spp. B. Ascomiceto “fungo-mão-com-dedinhos”, Ascobolus immersus. C. Cogumelo que cresce em fezes de vaca, Coprinus spp. D. Cogumelo Parasola misera (nº 1) e fungo com formato de taça, Ascobolus scatigenus (nº 2). E. Fungo bala-de-canhão que cresce em fezes de cavalo, Pilobolus kleinii. F. Cogumelo que cresce em fezes de cavalo e vaca “cogumelo-guarda-chuva”, Coprinopsis patouillardii. G. Cores e forma dos esporos do fungo ascomiceto “fungo-mão-com-dedinhos” chamado Saccobolus spp.

Para isso, estamos sempre buscando formas de divulgar o trabalho que desenvolvemos na Universidade Estadual de Goiás. Contar para as pessoas sobre o que fazemos na Universidade é de extrema importância, pois só assim democratizaremos o conhecimento, permitindo que toda essa maravilha possa ser compartilhada. A curiosidade é capaz de quebrar paradigmas e fazer com que pessoas alcem voos sobre uma infinita possibilidade de descobertas. A Profa. Solange nos incentiva o tempo todo sobre isso. Recentemente, nosso trabalho, bem como o trabalho de vários colegas do FungiLab, foi premiado com a segunda colocação no V Prêmio SBPC/GO de Popularização da Ciência. Como disse a Profa. Solange, “esse resultado contribuiu para a divulgação do conhecimento sobre os fungos, que são seres vivos pouco representados nos estudos de biodiversidade, já que esses estudos, na maioria das vezes, se restringem às plantas e aos animais, deixando no anonimato uma imensidão de espécies e sua grande relevância para a manutenção do equilíbrio dos ecossistemas”.

Assim, buscamos não restringir nossas pesquisas apenas aos artigos científicos, mas também a materiais e outros canais, para que mais pessoas saibam o que são os fungos e a importância deles no mundo. Uma forma que encontrei para contribuir com isso, veio através da inspiração em grandes comunicadores científicos, como Bill Bryson, Elizabeth Kolbert, Stephen Hawking, Marcelo Gleiser, Atila Iamarino, Randall Munroe, Neil deGrasse Tyson e outros. Assim, desenvolvi o projeto Mykocosmos para as redes sociais, que é uma forma de alcançar um grande público, e é uma forma utilizada por Universidades e Laboratórios mundo afora para divulgar a pesquisa realizada nos confins dos centros de pesquisa. Mykocosmos é um neologismo criado a partir do prefixo grego mýkēs (fungo) e a palavra cosmos. Assim como macro e microcosmos, que designam diferentes concepções de universo, Mykocosmos são os muitos “mundos fúngicos” que o projeto busca abordar. Lá, eu busco mostrar que todos os fungos (especialmente os fungos coprófilos, claro), assim como as plantas e animais, fazem parte da biodiversidade e precisam, em igual intensidade, ser preservados e admirados! Eu não poderia aprender sobre esse Reino e guardar isso só para mim, o conhecimento é precioso demais para não compartilhar!

Você pode saber mais sobre as atividades desenvolvidas no FungiLab acessando o site: https://micologiaueg.wixsite.com

Veja mais sobre o projeto de divulgação científica Mykocosmos no Instagram: https://bit.ly/2T24qGX.

 

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Notícia publicada em 04/02/2019