O conhecimento na antiguidade, mesmo que advindo da experiência e da constatação, para adquirir fundamento de validade era preciso ser atribuído a Deus. Só Deus detinha o dom de proclamar o conhecimento e a verdade. Daí que a ciência e a fé caminhavam juntas e habitavam o mesmo compartimento mental e valorativo.
Questão de moda. Hoje em dia, se você residisse num país periférico e ainda assim fosse um físico autônomo genial, e nessa condição formulasse uma fantástica “teoria da corda-brana”, que determina a mecânica e o ritmo dos corpos celestes, o máximo que iria lhe acontecer é ser tachado de doidinho pela vizinhança ignara e escarnecedora.
No entanto, anunciando a mesma doideira, mas residindo num país central e trabalhando ligado a uma instituição de excelência tecnológica como MIT (Massachusetts Institute of Technology), por exemplo, você seria, sem desconfiança, guindado à condição de gênio da raça, de sumidade científica. E não demoraria muito para que fosse agraciado com um Nobel, com toda grana e prestígio que isso proporciona. Daí poderia até aceitar convites para júri em concurso de misses, para dar o primeiro lance no leilão dos óculos de Elton John ou para descerrar a placa de inauguração do monumento aos pamonhas do mundo. Os outros cientistas que se descabelassem para demonstrar a validade ou não de sua teoria extravagante. Mas enquanto isso sua teoria maluca seria engolida como drágea de verdade científica.
Nos tempos de Moisés e seu Pentateuco, ou Torá para os judeus, o centro de excelência tecnológica era Deus. O sujeito constatava que comer carne de porco, nas condições de higiene precária de então, era uma fonte certa e segura de lombrigas e doenças. O observador escrevia uma recomendação para que seu povo não comesse daquela carne. Estava certíssimo. Mas para receber a chancela de credibilidade devida ele dizia que o aconselhamento fora ditado diretamente por Deus.
Há dessas proibições na Antiguidade, cujas razões são facilmente reconhecíveis, como esta de não comer carne de porco, para evitar a verminose. Mas existem umas que a Antropologia, a Teologia, nem mesmo a História conseguiram decifrar. Exemplo dos casos constantes do Levítico e do Deuteronômio, que proíbem juntar no mesmo tecido os fios de lã e linho ou semear espécies diferentes no mesmo campo. Muito menos cruzar espécies ou raças diferentes de animais ou fazer enxerto de plantas. Pesquisadores têm se debruçado sobre tema ao longo da História e nunca lograram encontrar uma razão plausível. Por que Deus teria proibido essas misturas tão inocentes?
Diante dos últimos acontecimentos, não tenho ainda uma certeza cabal, mas já posso formular uma boa conjectura. O que seriam essas misturas proibidas pela lei de Moisés? Transportando para o nosso tempo, elas nada mais seriam do que a nossa tão decantada Convergência Tecnológica, fenômeno que saudamos com entusiasmo pueril.
Começou assim, tudo muito singelo. Misturando no mesmo tecido fios de lã e linho. Plantando no mesmo campo feijão e milho. Mas daí para se pretender misturar os DNAs do linho e da ovelha para se obter uma fibra híbrida foi um pulo.
Os utensílios, do mesmo modo, começaram a ser misturados. Despertador com telefone e toca-discos, óculos com ipod e assim por diante. Mas com o apoio da engenharia genética a Convergência Tecnológica da informática e o corpo humano já começou. Apenas começou, abrindo caminho para possibilidades vertiginosas. O caminho é longo, mas como hoje em dia tudo é urgente urgentíssimo, de forma que o que vai ser já é e o que é já era, logo chegaremos onde nem João com seu Apocalipse delirante vislumbrou um dia. Mas o Levítico e o Deuteronômio, intuitivamente, haviam vislumbrado; e proibido.
Acho que o aconselhador do Pentateuco, munido de suas premonições e ciências infusas, já temia pelo ser humano que resultaria dessa mistura, dessa Convergência Tecnológica agora em marcha veloz. Tenho fundadas suspeitas de que, se não formos barrados antes por um evento de monta como aquecimento global (o fracassado da COP15 nos liga a este evento), esgotamento dos recursos naturais por excesso de contingente, ou atolamento irremediável nos próprios dejetos, muito em breve perderemos a condição humana como tal a conhecemos.
Mais dia menos dia um software bio-psico-digital será capaz de reduzir as faculdades humanas, em toda a sua fortuna e amplitude, a um algoritmo binário. Aí poderemos ser plugados num PC da lan house da esquina e nosso espírito e todo o estofo sensorial serão baixados para um HD ordinário.
Aproveita-se para fazer um upgrade do nosso complexo neural. Faz-se um descarrego, uma limpeza de jeito, para nos livrar dos traumas, das culpas, das neuras e dos pensamentos ruins. E então, turbinados e livres das mazelas pretéritas, poderemos viver indefinidamente numa comunidade virtual de habitat orkut, second life, farm ville ou coisa que o valha. Seremos uma biota inédita num paraíso virtual, na rede mundial de computadores sem remorso.
Todas as emoções e sentimentos vitais serão emulados por funções e comandos hi-tec, num sistema amigável. Talvez acionado pelo pensamento. Pensamento este que será alimentado pelo próprio sistema, numa simbiose viciosa, de escravidão consentida. Poderemos usufruir de nirvanas robóticos e orgasmos cibernéticos intermináveis. Poderemos comer churrasco de picanha 3D, tomar chope simulado ao pôr do sol e cheirar carreirões de equação na balada.
A morte será abolida para sempre e a noção de Deus deletada como um phishing ou um trojan. Ainda que estejamos o tempo todo sob a espreita de bugs e corjas de malwares. Que bichos seremos nós em circunstâncias tão singulares? Que bens vamos prezar, que valores vamos eleger? Que imagem faremos de nós diante de um espelho virtual? De qualquer forma, não seremos mais à imagem e semelhança de Deus. Seremos o próprio; um Godware.
Algo me diz que é por estas, e não outras, que os temores intuitivos do autor do Pentateuco se tornam repletos de significados. E assombro.